Erosão costeira contínua ameaça praia na região metropolitana de Fortaleza

Ondas do mar batem no calçadão da Praia do Icaraí, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza: erosão costeira contínua ameaça praia (Fotos: Anna Letícia/Helaine Souza)
Ondas do mar batem no calçadão da Praia do Icaraí, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza: erosão costeira contínua ameaça praia (Fotos: Anna Letícia/Helaine Souza)
Ondas do mar batem no calçadão da Praia do Icaraí, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza: erosão costeira contínua ameaça praia (Fotos: Anna Letícia/Helaine Souza)

Moradores e comerciantes da Praia do Icaraí, em Caucaia, convivem com perdas econômicas, insegurança e o medo de ver o seu lar desaparecer

Por Jornalismo - Universidade Federal do Ceará | ODS 14ODS 15

Publicado em 31/07/2026 - 00h35

Tempo de leitura: 22 min

(Analice Nobre, Anna Letícia Matias, Helaine Souza, Geovana Almeida e Filipe Vasconcelos*) – De Fortaleza a Caucaia, o avanço do mar expõe um problema que não respeita limites políticos. A erosão costeira, que hoje se manifesta de forma mais visível em praias como o Icaraí, é resultado de um processo ambiental contínuo ao longo do litoral cearense. De acordo com um estudo desenvolvido pelo Departamento de Geologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), publicado em julho de 2024, metade da costa do Estado deverá perder ao menos 10 metros de faixa de areia até 2040. Conforme explica a professora Narelle Maia de Almeida, uma das autoras da pesquisa, 49,16% dos 573 quilômetros do litoral do estado apresentam tendência de recuo.

A praia não respeita limite político

Fábio Matos
Doutor em Geografia pela UFC e pesquisador do Instituto de Ciências do Mar

Nesse cenário, a praia do Icaraí, no município de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza, é apontada como um dos casos mais emblemáticos de erosão costeira de origem antropogênica no litoral. Entre 1984 e 2020, a praia perdeu cerca de 109 metros de sua linha de costa. O estudo se baseou na construção de um banco de dados com imagens de satélite obtidas pelo repositório EarthExplorer, do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), que foram georreferenciadas e utilizadas para traçar a evolução anual da linha de costa cearense ao longo de quase quatro décadas.

Contrariando uma percepção comum entre moradores da região, o recuo do mar no Icaraí não está diretamente relacionado ao aterro da Praia de Iracema, localizada em Fortaleza. O fenômeno é atribuído, sobretudo, às intervenções estruturais realizadas na capital, como a construção do Porto do Mucuripe e os espigões ao longo da orla, que alteram a deriva litorânea natural e impedem o transporte de sedimentos para o litoral oeste.

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Como explica o doutor em Geografia pela UFC e pesquisador do Instituto de Ciências do Mar (Labomar/UFC), Fábio Matos, especialista em planejamento ambiental e gerenciamento costeiro, compreender a erosão em Caucaia exige, antes, olhar para Fortaleza. “Para a gente falar de Caucaia, a gente precisa falar de Fortaleza. Quando a gente fala do processo erosivo que acontece hoje no Icaraí, ele remonta aos anos 40, quando começaram as obras do Porto do Mucuripe […] A praia não respeita limite político”, contextualiza o pesquisador.

Essas intervenções provocam um déficit de sedimentos e intensificam o recuo da linha de costa. Embora os espigões tenham como função principal proteger trechos específicos da orla fortalezense, sua eficácia é localizada e temporária. Ao reter areia em determinados pontos, acabam deslocando o problema para áreas vizinhas, aprofundando a erosão em outras praias.

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“Se está acumulando areia em algum lugar onde não era para acumular, ela vai faltar em outros”, resume Fábio. O resultado é visível em praias como Iparana, vizinha ao Icaraí, que hoje praticamente não possui faixa de areia, evidenciando que, no litoral, os impactos se deslocam, mas não desaparecem.

O caso do Icaraí, portanto, não surge de forma isolada. Ele é resultado de um processo que se deslocou ao longo da costa, atravessou praias vizinhas e hoje se manifesta de forma mais intensa em Caucaia, configurando uma crise ambiental de difícil reversão. Diante disso, estaria o Icaraí, aos poucos, desaparecendo do mapa?

Mar avança na praia do Icaraí: obras em Fortaleza interrompem deriva litorânea e 'roubam' areia das praias de Caucaia (Fotos: Anna Letícia/Helaine Souza
Mar avança na praia do Icaraí: obras em Fortaleza interrompem deriva litorânea e ‘roubam’ areia das praias de Caucaia (Fotos: Anna Letícia/Helaine Souza)

O que é a deriva litorânea? E por que ela foi interrompida?

A deriva litorânea é um processo natural das praias que se refere ao transporte de sedimentos, como areia e cascalho, ao longo da costa, impulsionado principalmente pela ação das ondas e das correntes marítimas. Quando esse processo é interrompido, os sedimentos deixam de circular de forma equilibrada. Enquanto algumas áreas passam a acumular areia em excesso, outras sofrem com a escassez de sedimentos, intensificando os processos de erosão costeira.

Como a gente fala, senti no bolso. Hoje, seis horas da tarde, a gente vai embora, porque não tem mais ninguém. Tanto faz se é sábado, domingo ou dia da semana

Fran Rocha
Dona de barraca na Praia do Icaraí

Segundo o professor Fábio Matos, na costa de Fortaleza a deriva litorânea ocorre predominantemente no sentido leste–oeste, partindo da região do Porto do Mucuripe em direção ao litoral oeste da Região Metropolitana. “Nessa parte da cidade de Fortaleza, ela acontece de leste para oeste. Ela vem lá do Mucuripe e vai perpassando e segue adiante, rumo ao oeste daquela região. Quando você constrói o Porto do Mucuripe ali, você cria uma barreira que você passa a segurar areia, sedimento.”

A construção de espigões foi a solução encontrada para tentar conter a perda de areia na orla de Fortaleza. No entanto, trata-se de uma medida localizada e não definitiva. Como reforça o pesquisador, ao interromper o fluxo natural dos sedimentos, os espigões promovem a acumulação de areia em determinados pontos, enquanto outras praias passam a sofrer com uma falta de sedimentos e um recuo mais acelerado da costa.

Barracas na orla e o asfalto danificado pelas ondas do mar na Praia do Icaraí: moradores e comerciantes convivem com perdas econômicas e o medo de ver o seu lar desaparecer (Fotos: Anna Letícia/Helaine Souza)
Barracas na orla e o asfalto danificado pelas ondas do mar na Praia do Icaraí: moradores e comerciantes convivem com perdas econômicas e o medo de ver o seu lar desaparecer (Fotos: Anna Letícia/Helaine Souza)

Quando a areia some, o território adoece

O Icaraí jamais foi o mesmo após o avanço da erosão costeira. As consequências dessa transformação são sentidas, especialmente, por quem vive no território e depende diretamente dele para sobreviver. Moradores e comerciantes acompanham, há anos, o desaparecimento gradual da faixa de areia em um processo lento, que persiste e é marcado pela ausência de políticas públicas concretas e a longo prazo.

Na música “Eu sou do Mar”, o cantor Armandinho define o mar como “útero de todos nós”, “força vívida” e “vida límpida”. É essa força que historicamente moveu lugares como o Icaraí e sustentou gerações que construíram ali suas raízes, sua renda e seu cotidiano. No entanto, com o avanço da erosão esse território foi sendo esvaziado. O turismo, que antes garantia sustento a muitas famílias, diminuiu de forma drástica. O espaço antes marcado pela circulação, pelo lazer e pelo encontro passou a ser descrito pelos moradores como vazio e quase abandonado.

Um dos símbolos mais evidentes dessa transformação é o Icaraí Clube, polo de lazer fundado há 65 anos e desativado em decorrência dos impactos do avanço do mar. Atual presidente e proprietário do clube, Darwin Torrelo, de 61 anos, vive há 33 anos na costa do Icaraí e acompanhou de perto a degradação progressiva da região.

Darwin Torrelo, presidente do Icaraí Clube, polo de lazer fundado há 65 anos foi desativado em decorrência dos impactos do avanço do mar (Fotos: Anna Letícia/Helaine Souza)
Darwin Torrelo, presidente do Icaraí Clube, polo de lazer fundado há 65 anos foi desativado em decorrência dos impactos do avanço do mar (Fotos: Anna Letícia/Helaine Souza)

Darwin relata que, inicialmente, a construção de 11 espigões foi apresentada como solução para conter o processo erosivo e proteger a praia. Mas a falta de continuidade das obras e o abandono de projetos da área acabaram aprofundando o esvaziamento do local e impactando diretamente o turismo. Segundo ele, houve, em um primeiro momento, sinalização de apoio por parte do poder público, mas as ações não avançaram nem se mantiveram ao longo do tempo.

Na linha de frente desse impacto está Dona Fran Rocha, de 64 anos, comerciante e dona de uma barraca instalada em frente a um dos espigões. Moradora do Icaraí desde os 7 anos de idade, ela mantém o comércio no mesmo ponto da praia, há 32 anos. Ao longo desse período, viu o mar avançar, a areia desaparecer e o movimento diminuir. Em alguns momentos, a barraca sequer pôde funcionar, comprometendo a principal fonte de renda da família e tornando a permanência no local cada vez mais incerta.

“Como a gente fala, senti no bolso. Hoje, seis horas da tarde, a gente vai embora, porque não tem mais ninguém. Tanto faz se é sábado, domingo ou dia da semana”, confidenciou Fran.

Os jovens tinham onde vir, curtir, se divertir. Aqui foi um dos maiores locais de carnaval

Darwin Torrelo
Presidente do Clube Icaraí

O sentimento de abandono também aparece com força no relato de Maria das Graças Freitas, moradora antiga da região. Ela associa a erosão à perda dos espaços de lazer e à ausência do poder público. Lembra que o Icaraí Clube atraía grande circulação de pessoas e que a própria configuração da orla era completamente diferente. “Depois da barraca tinha uma área com um calçadão bem grande, tinha uma pista, tinha um meio-fio, tinha essa pista pra chegar em cima. A barraca funcionava lá no final. Dá pra ver o tanto que o mar avançou”, relata, ao apontar a transformação da paisagem e o encolhimento do território.

Em diversas tratativas da equipe, o presidente do Instituto do Meio Ambiente de Caucaia (IMAC), Felipe Leite Ribeiro, foi procurado para prestar esclarecimentos. Em todas as tentativas de contato, a resposta foi a indisponibilidade para entrevista, sob a justificativa de agenda cheia.

A ausência de posicionamento institucional reforça, entre os moradores, a percepção de abandono e a sensação de que o problema se arrasta sem acompanhamento técnico contínuo ou diálogo com a população afetada.

Fran Rocha atende clientes em sua barraca na Praia do Icaraí: turismo no litoral diminuiu de forma drástica (Fotos: Anna Letícia/Helaine Souza)
Fran Rocha atende clientes em sua barraca na Praia do Icaraí: turismo no litoral diminuiu de forma drástica (Fotos: Anna Letícia/Helaine Souza)

Para além das perdas visíveis, o avanço do mar provoca impactos mais profundos e menos perceptíveis no cotidiano da população. Ao comentar os efeitos da erosão no Icaraí, o pesquisador Fábio Matos destaca que o principal impacto é a perda do espaço de vida. “O principal é a perda de espaço, de moradia. Moradia é um fator essencial. Moradia, lazer, comércio, circulação. Isso do ponto de vista visual e também o não visível, que são as questões psicológicas que afetam diretamente essa população.”

Segundo Fábio, a erosão compromete não apenas a renda e o uso do território, mas também o vínculo emocional dos moradores com o lugar onde vivem, gerando insegurança, medo e sensação de instabilidade permanente. Para ele, enfrentar esse cenário exige repensar a forma como a zona costeira é administrada. “Ela não pode ser uma gestão de responsabilidade penas do município. Precisa ser uma gestão compartilhada”, reforça.

“O primeiro ponto essencial, que inclusive é previsto pelas políticas públicas, é o planejamento participativo. Não tem como fazer um planejamento específico pro Icaraí que não seja participativo. Não basta somente um plano de engenharia puro e simples”, acrescenta Fábio sobre a participação popular na busca por sanar o problema.

Enquanto soluções estruturais não se concretizam e o diálogo institucional permanece limitado, moradores seguem convivendo com medidas temporárias, promessas interrompidas e a ausência do poder público. O mar, descrito como útero e força vital, continua avançando em um território que perde, pouco a pouco, as condições de sustentar quem dele depende.

Praia do Icaraí sem areia com avanço do mar: para especialistas, recuperação do Icaraí, mais do que obras pontuais, requer um plano integrado de gerenciamento costeiro (Fotos: Anna Letícia/Helaine Souza)
Praia do Icaraí sem areia com avanço do mar: para especialistas, recuperação do Icaraí, mais do que obras pontuais, requer um plano integrado de gerenciamento costeiro (Fotos: Anna Letícia/Helaine Souza)

As soluções possíveis para a erosão costeira

Com o passar dos anos, a paisagem diária passou a virar memória em risco. No Icaraí, esse instante foi vivido pela população como quem entra no mar sem saber se conseguirá voltar para casa. Em pouco tempo, o mar avançou, tomou parte do território – físico, econômico e emocional – e redesenhou a orla com força e indiferença.

A destruição não veio de um dia para o outro. Normalmente, ela é aumentada e anunciada pelas marés de novembro, dezembro e janeiro – períodos conhecidos tecnicamente como de maior energia hidrodinâmica, quando ventos mais intensos, ondas mais altas e marés astronômicas se combinam. “Elas entram mesmo”, diz o dono do clube do Icaraí, como quem descreve um visitante antigo que já não pede licença.

O clube era mais que uma estrutura física; era um ponto de encontro, um espaço de sociabilidade. “Tudo aqui no clube sempre era lotado”, relembra, emocionado.

Hoje, Darwin afirma que a lotação é mínima. O esvaziamento não é apenas de pessoas, mas de uma segurança interrompida pela instabilidade do solo e pela ausência de respostas políticas duradouras e eficientes. “Quando foi lançada a medida dos 11 espigões, veio do Naumi (Amorim, prefeito de Caucaia de 2017 a 2021). Participei dessa audiência pública”, relembra o dono do clube. O projeto, no entanto, ficou travado por entraves técnicos e ambientais. Mais tarde, na gestão seguinte, apenas três espigões foram construídos.

Tecnicamente, espigões isolados podem até amenizar a erosão em pontos específicos, mas sem continuidade eles transferem o problema ao longo da costa, criando áreas protegidas e outras ainda mais vulneráveis. “Ganhou com isso quem já tinha ganhado e que nunca fez nada”, conta a moradora Maria das Graças de Freitas, que mora no Icaraí há cerca de 40 anos.

A percepção da comunidade é dura: “Como se tivessem começado para maquiar a situação e abandonaram”. Os três espigões, segundo relatos locais, beneficiam áreas onde residem grandes empresários e figuras políticas. “Ali amenizou e não continuou”, conta um dos moradores.

Mas a praia do Icaraí não é apenas um estudo de caso sobre falhas na gestão costeira. Ele é, sobretudo, um território de afetos. “Os jovens tinham onde vir, curtir, se divertir. Aqui foi um dos maiores locais de carnaval”, complementa Darwin. A praia era palco de encontros, risos, música e pertencimento.

O grande problema do Icaraí é a falta de uma gestão integrada da zona costeira

Fábio Matos
Doutor em Geografia pela UFC e pesquisador do Instituto de Ciências do Mar

Hoje, quem permanece sente a ansiedade de quem espera. “Eu recebo esse pessoal, recebo essa ansiedade”, diz o anfitrião do clube que insiste em resistir. Há consciência de que ciclos se encerram e outros começam. O mar avança, recua, retorna. A ciência chama isso de dinâmica costeira. A comunidade chama de vida.

Do ponto de vista técnico e ambiental, a recuperação do Icaraí exige mais do que obras pontuais. Requer um plano integrado de gerenciamento costeiro, com monitoramento contínuo, combinação de soluções estruturais (como espigões e engordamento artificial da praia) e não estruturais (recuo planejado, preservação de dunas, educação ambiental). Acima de tudo, exige escuta.

Na Praia do Icaraí, mar avançou, tomou parte do território e redesenhou a orla: erosão costeira aumenta no fim do ano com ondas maiores e ventos intensos (Fotos: Anna Letícia/Helaine Souza)
Na Praia do Icaraí, mar avançou, tomou parte do território e redesenhou a orla: erosão costeira aumenta no fim do ano com ondas maiores e ventos intensos (Fotos: Anna Letícia/Helaine Souza)

Várias tentativas de conter esse processo erosivo aconteceram no Icaraí. “Nos anos 2000, se tem a ideia de fazer uma infraestrutura de ‘bag wall’, com o objetivo de segurar sedimento, mas não resolveu”, explicou Fábio Matos. O ‘bag wall’ é uma técnica de engenharia de defesa costeira utilizada para combater a erosão e o avanço do mar, através de escadas de pedras construídas na beira da praia.

Em agosto de 2011, esse recurso foi implantado na praia do Icaraí. O intuito era recuperar cerca de 1.340 metros de faixa de praia. Os trabalhos foram concluídos em 90 dias, com um custo de R$ 8 milhões, sendo boa parte oriunda do Governo Federal, através do Ministério da Infraestrutura.

Em maio de 2012, a maré já tinha destruído mais de 100 metros do ‘bag wall’ do Icaraí. Assim como os espigões, as escadas de pedra eram reconstruídas para maquiar o avanço dos sedimentos. “O meio ambiente, ele tenta se adaptar à situação que tem, mas o impacto acontece”, pontua Fábio.

Quando perguntado sobre o reflexo da crise climática na realidade do Icaraí, o especialista pontua que aspectos como o aumento do nível do mar ou das temperaturas corroboram com o fenômeno, mas a realidade das praias da Caucaia é fruto de “ação humana imediata”. “O grande problema do Icaraí é a falta de uma gestão integrada da zona costeira”, reafirmou.

O Plano Diretor de Caucaia, instituído pela Lei Complementar nº 59/2019, e conhecida como Plano Diretor Participativo (PDP) de Caucaia, foi feito em 2019. No ano passado (2025), algumas atualizações foram feitas no documento, mas ainda em 2019, o plano já reconhecia a urgência em resolver a problemática.

O Plano Diretor classifica o avanço do mar como uma das principais ameaças ambientais do município de Caucaia. O texto identifica a “linha imediata dos processos de erosão das praias da Região Metropolitana” como um fator de risco constante. Além disso, o documento admite que o avanço do mar já atingiu áreas turísticas e desvalorizou localidades deixando “escombros onde antes era urbanizado”.

O plano prevê a “implantação de solução definitiva para resolver o problema do avanço do mar”, mas não detalha através de quais medidas de longo prazo isso seria feito. Estavam previstas também as medidas de contenção do processo erosivo (espigões e bag walls), incluindo o Icaraí e o Pacheco. Após a contenção da erosão, o plano propõe a reestruturação e revitalização das áreas degradadas, com a remoção de escombros e a construção de vias litorâneas e calçadões.

Fábio Matos explica que o problema é complexo, mas reforça que o primeiro passo em direção a conclusão é que a gestão seja feita de maneira integrada. Estudos internacionais explicam quais tipos de medidas podem ser planejadas por essas “gestões integradas”, em casos semelhantes ao do Icaraí.

O primeiro exemplo é a ‘Alimentação Artificial de Praia, ou Beach Nourishment’. Essa medida consiste na reposição da areia na praia, sendo considerada uma solução sustentável que respeita a dinâmica natural, em contraste com a rigidez forçada dos espigões. Outra medida mais natural e orgânica está na recuperação de dunas, manguezais, recifes de corais e ervas marinhas que influenciam indiretamente no ciclo da erosão daquele espaço. Essa ação serviria para aumentar a resiliência costeira contra o processo de erosão.

Em último caso, o chamado Recuo Planejado, ou Managed Retreat, pode se tornar uma opção para realocar infraestruturas costeiras para áreas seguras, permitindo que a linha de costa se ajuste naturalmente. Essas estruturas (casas, clubes, restaurantes, áreas de lazer e outros) seriam realocadas levando em consideração aspectos culturais, psicológicos e sociais, além de fornecer auxílio financeiro para que as populações transferidas se organizassem em novos territórios.

Por que, no fim, o que precisa permanecer não é apenas a faixa de areia, mas o sentido do lugar. O mar do Icaraí redesenhou a costa e o abandono político permitiu que esse desenho ultrapassasse as linhas permitidas.

*Analice Nobre, Anna Letícia Matias, Helaine Souza, Geovana Almeida e Filipe Vasconcelos são graduandos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará

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Jornalismo - Universidade Federal do Ceará

Reportagens produzidas por estudantes da disciplina de Jornalismo Ambiental da Universidade Federal do Ceará, sob orientação da professora e jornalista Rosane Nunes

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