Entre o oceano e a memória, Vila do Mar preserva saberes da pesca artesanal em Fortaleza

A Vila do Mar, tradicional porto da pesca artesanal em Fortaleza: Ceará registra mais de 30 mil pescadores (Foto: Maria Letycia)
A Vila do Mar, tradicional porto da pesca artesanal em Fortaleza: Ceará registra mais de 30 mil pescadores (Foto: Maria Letycia)
A Vila do Mar, tradicional porto da pesca artesanal em Fortaleza: Ceará registra mais de 30 mil pescadores (Foto: Maria Letycia)

Do legado do Dragão do Mar às histórias vivas dos pescadores de hoje, ofício ancestral constrói identidade e mantém viva a cultura marítima da capital cearense

Por Jornalismo - Universidade Federal do Ceará | ODS 11ODS 14ODS 8

Publicado em 31/07/2026 - 00h37

Tempo de leitura: 14 min

(Hanna Queiros, Maria Letycia, Rafael Santana e Yuri de Lima*) – No Ceará, a pesca artesanal transcende a simples atividade econômica; ela é o fio condutor que tece a identidade de diversas comunidades. Muito mais do que garantir o sustento de milhares de famílias, o ofício do pescador preserva saberes ancestrais, desde as marés até a construção das jangadas, que transformaram o mar em um território de vivência e resistência.

Assim, cada barco que parte não carrega apenas redes, mas a história viva de um povo que aprendeu a transformar o oceano em lar e patrimônio. No século XIX, a atividade dos jangadeiros em Fortaleza representava o motor logístico da capital.

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Como a cidade não possuía um porto de águas profundas ou cais estruturado, os grandes navios dependiam exclusivamente das ágeis jangadas para o transporte de cargas e passageiros até a areia. Essa dependência estratégica colocou a classe dos pescadores da época no centro da economia local.

Foi nesse contexto que, em 1881, emerge Francisco José do Nascimento, imortalizado como Dragão do Mar na história e cultura cearense. Nascido em Canoa Quebrada e radicado em Fortaleza, Chico da Matilde deixou um legado para além de líder abolicionista, já que foi ele quem liderou movimento que paralisou o tráfico de escravizados no Ceará, que posteriormente consolidou estado como o primeiro a abolir a escrevaidão no Brasil, em 1884.

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Sua trajetória de personificação da força e liderança da comunidade pesqueira cearense, ilustrou como o conhecimento das marés e a habilidade na navegação eram saberes fundamentais que conferiam autoridade e respeito dentro da sociedade da época.

Dragão do Mar, em ilustração de 1884 da publicação carioca "Revista Ilustrada", da Biblioteca do Senado (Foto: Reprodução)
Dragão do Mar, em ilustração de 1884 da publicação carioca “Revista Ilustrada”, da Biblioteca do Senado (Foto: Reprodução)

A persistência da pesca artesanal mantém viva uma tecnologia naval ancestral e sustentável, onde a jangada representa a adaptação engenhosa e corajosa do cearense ao mar aberto.

Ele passou a ser visto como o guardião da liberdade na “Terra da Luz”. Essa narrativa solidificou a cultura marítima e a pesca não apenas como atividades econômicas essenciais, mas como elementos centrais do orgulho, da cultura e da formação da identidade do povo de Fortaleza, mantendo viva uma tecnologia naval ancestral que atravessa o tempo e as gerações.

Um pescador fortalezense

Hoje, mais de 34 mil pescadores são registrados no Ceará, segundo a Federação das Colônias de Pescadores Artesanais e Aquicultores do Estado do Ceará (Fepesce). E entre eles, se encontra Elias da Silva, conhecido aos arredores da praia como Pepita, de 44 anos.

O pescador, além de secretário da pesca da Colônia Z8 de Fortaleza, já tem mais de 30 anos de uma trajetória iniciada com essa atividade, iniciando ela- aos 13 anos com seu padrasto pela necessidade de recursos básicos, como alimentação.

Pepita tem mais de 30 anos de trajetória no mar: "vejo que a pesca tá ficando sem pescador; tem, uma geração que não quer dácontinuidade a esse legado," (Foto: Maria Letycia)
Pepita tem mais de 30 anos de trajetória no mar: “vejo que a pesca tá ficando sem pescador; tem, uma geração que não quer dá
continuidade a esse legado,” (Foto: Maria Letycia)

“Lembro bem da primeira vez: meu padrasto estava precisando de ajuda e fomos numa jangada, pegamos uns 30 quilos de peixe e fiquei satisfeito demais. Graças a Deus, trabalhando sério nunca tive problema grave, sufoco mesmo no mar foi só pegar tempestade, quebrar mastro ou leme”, relata.

Na pesca, desafios financeiros foram constantes na vida de Elias, que já trabalhou de garçom e ajudante de carpinteiro, entre outras profissões, mas se perguntam qual é seu ofício, ele faz questão de afirmar que é ‘pescador’.

“Eu tenho orgulho de ser pescador, e eu acho que muitos que vivem da pesca ele não vai dizer que não tem. No mar, aprendi a ser mais calmo, ensinamento já passado também por outros mestres, além de entender que tudo que o mar dá, ao mesmo tempo ele pode tomar, e isso vai depender da relação que você constrói com ele. Vi gente ignorante na pesca que aprendeu muita lição de vida com o mar”, diz.

Quando você fala com um pescador, você nota o orgulho que ele tem de ser pescador, e do conhecimento que ele adquiriu

Regina Balbino
Doutoranda em Geografia na Universidade Federal do Ceará

No mar, o pescador costuma capturar lagosta, sardinha, serra (e serrinha novo), cavalo (ou cavala), garajuba, ariacó, judeu, camole, salema, carapeba, parum, pampo, galo, pargo e cioba. Na colônia, trabalha em prol de melhorias para a profissão. Em Fortaleza, teve oportunidade de pescar em diversos lugares, mas é no bairro da Barra do Ceará que ele se encontra.

“A nossa diferença é porque nós mesmos vendemos o nosso peixe com a chegada do mercado do peixe, sem precisar ir pro Mucuripe ou vender dentro dos bairros como antigamente. Em nossa rotina, a gente nunca tem um horário específico, temos que estar no mar na hora que o peixe tá dando: seja de madrugada, de tarde ou durante o dia. A gente define se a pesca foi boa pelo valor que agrega”, explica.

“Mas meu sonho de dias melhores continua. Tenho orgulho de dizer: sou pescador.”

Para Pepita, hoje os maiores desafios em sua realidade são os governantes, que olham para sua profissão sem o reconhecimento devido e promessas em época de campanha política que não se concretizam.

“Também vejo que a pesca tá ficando sem pescador, uma geração que não quer dar continuidade a esse legado, mesmo a profissão garantindo seguro e aposentadoria. Hoje, o que me deixa realizado é saber que consegui formar minhas filhas na faculdade, ter minha casa e minhas quatro jangadinhas, tudo conquistado com a minha trajetória como pescador. Sempre lembro, sou pescador”, finaliza.

Adailton “Dadá” Oliveira exibe um peixe capturado durante a jornada de pesca: patrimônio imaterial cultural (Foto: Maria Letycia)
Adailton “Dadá” Oliveira no corte do peixe: técnicas transmitidas entre pescadores são patrimônio imaterial cultural (Foto: Maria Letycia)

A pesca artesanal como patrimônio

Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, a pesca artesanal reúne técnicas, celebrações e modos de vida que atravessam séculos. Mesmo diante das transformações urbanas e dos conflitos pelo uso do território, essa prática segue viva em Fortaleza, especialmente em áreas como a Vila do Mar, onde o cotidiano da cidade ainda se organiza a partir do mar.

De acordo com a pesquisadora Regina Balbino, doutoranda em Geografia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), que estuda a Cartografia Social do Mar e os conflitos em torno da pesca artesanal no estado, é fundamental reconhecer o protagonismo histórico e social dos pescadores artesanais. “A pesca artesanal em si é a base histórica da formação de nosso estado. A história do Ceará está completamente atrelada à comunidade pesqueira”, afirma.

Ao trazer essa análise para o contexto da capital cearense, Regina destaca que Fortaleza se desenvolveu de costas para o mar durante muito tempo. “Por muito tempo o mar não era tido como um espaço agradável, um espaço apropriado. Quem vivia nessas áreas eram os pescadores”, explica.

Além do valor cultural e simbólico, a pesca artesanal também desempenha um papel central na economia do estado. “Também podemos atrelar a importância patrimonial da pesca artesanal à questão econômica. A pesca artesanal é uma das atividades econômicas mais rentáveis que nós temos”, ressalta a pesquisadora.

Ela destaca ainda que a produção pesqueira cearense não tem origem industrial. “Praticamente não temos pesca industrial no Ceará. Temos como principal motor do suprimento de pescado a atividade pesqueira artesanal.”, diz.

Regina Balbino também chama atenção para a importância da Vila do Mar e de seus arredores no processo de formação de Fortaleza. “Falar da Vila do Mar, da atividade pesqueira, é falar da formação da cidade”, afirma.

A pesquisadora lembra que a região do Grande Pirambu, que engloba bairros como Cristo Redentor, Pirambu e Barra do Ceará, é considerada o berço da capital cearense. “Você vê que a base da população desses bairros nasceu de pescadores. Esses pescadores ainda resistem, a pesca artesanal ainda resiste nessas áreas.”, lembra.

Essa resistência está ligada não apenas à sobrevivência econômica, mas também à identidade e ao pertencimento dessas comunidades. “Tem associações de pescadores dentro da própria Vila do Mar que buscam manter viva essa atividade, que buscam passar isso de geração em geração, devido à sua importância econômica para as famílias, mas também simbólica e de pertencimento”, explica.

Para Regina, a pesca artesanal vai além de uma ocupação profissional. “Para essas pessoas, isso não é somente um trabalho: é algo que faz parte de quem ela é. Quando você fala com um pescador, você nota o orgulho que ele tem de ser pescador, e do conhecimento que ele adquiriu”, conclui.

Um saber ancestral

Os saberes tradicionais da pesca artesanal são formados por aprendizados construídos ao longo da vida no mar e transmitidos entre gerações. Desde cedo, esse conhecimento começa a ser incorporado, como no caso de Victor Daniel, que ainda criança acompanha o pai na pesca e aprende observando e praticando.

Victor Daniel na Vila do Mar: acompanhando o pai na pesca desde os cinco anos de idade (Foto: Maria Letycia)
Victor Daniel na Vila do Mar: acompanhando o pai na pesca desde os cinco anos de idade (Foto: Maria Letycia)

O contato precoce com a jangada, com as redes e com o ambiente marítimo ensina noções básicas do ofício, como reconhecer espécies, lidar com iscas e compreender o território onde a pesca acontece, revelando como o aprendizado se inicia dentro da família e do cotidiano.

Com o passar dos anos, a vivência diária no mar aprofunda esses aprendizados e amplia o repertório de saberes. Pescadores como Michel, com mais de 30 anos de experiência, aprenderam o ofício começando como ajudantes de embarcação e evoluindo gradualmente na prática.

Ao longo do tempo, ele aprendeu a ajustar horários de saída e retorno conforme a pescaria, a ler os ventos e a identificar períodos mais perigosos, além de lidar com situações de risco, manter a calma em momentos difíceis e dominar a embarcação para retornar em segurança.

A prática contínua no mar também ensina conhecimentos técnicos específicos, como relata o pescador Adailton Oliveira, conhecido como Dadá. A partir da observação e da repetição, ele aprendeu a cortar o peixe da forma adequada, preparar a isca e posicionar o anzol de modo a criar movimento na água, fazendo com que o peixe pareça vivo e atraia espécies maiores.

Dadá demonstra ainda conhecimento sobre o comportamento dos peixes, reconhecendo espécies como bonito, cavala e camurupim, identificando os locais onde costumam aparecer e observando seus movimentos próximos à costa, saberes construídos pela experiência direta no território.

Esses aprendizados incluem também ensinamentos simbólicos e culturais, transmitidos pelos mais velhos e reforçados pela própria vivência. Michel destaca que um dos principais saberes adquiridos ao longo da vida é o respeito ao mar e a consciência de que a confiança excessiva pode ser perigosa, já que o mar é imprevisível e ensina algo novo todos os dias.

Dessa forma, os saberes tradicionais da pesca artesanal se consolidam como um conjunto de conhecimentos construídos na prática, na memória e na transmissão oral, garantindo sua continuidade desde a infância, como no percurso de Victor Daniel, até a maturidade de pescadores com décadas de vivência no mar.

*Hanna Queiros, Maria Letycia, Rafael Santana e Yuri de Lima são graduandos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará

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Jornalismo - Universidade Federal do Ceará

Reportagens produzidas por estudantes da disciplina de Jornalismo Ambiental da Universidade Federal do Ceará, sob orientação da professora e jornalista Rosane Nunes

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