ODS 1
Férias na praia em Fortaleza: quando o lixo é maior que a festa




Lixo na Praia de Iracema em Fortaleza após a celebração do Ano Novo: poluição do oceano muito além da festa (Foto: Coletivo Nossa Iracema – 01/01/2026)
Quantidade de detritos recolhidos na Praia de Iracema após Réveillon é sinal de alerta sobre descarte do lixo e seu impacto nos oceanos
(Clara Freire, Luiz Ribeiro, Lorena Alves e Ester Rodrigues*) – Quando os últimos acordes do show de Taty Girl cessaram e o sol já estava rasgando o horizonte no Aterro da Praia de Iracema, marcando o início de 2026, a euforia de 1,5 milhão de pessoas deu lugar a uma paisagem horrível. Sob os pés de quem celebrava o Ano Novo, restou um tapete compacto de copos descartáveis, garrafas, talheres e bitucas de cigarro. A Prefeitura de Fortaleza divulgou que, somando todos os polos da festa na cidade, o montante de lixo chegou a 120 toneladas. Mas para quem vive a realidade da conservação marinha, esses números não são motivo de aplauso, mas de alerta vermelho.
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André Comaru, 44, ativista socioambiental e criador do Coletivo Nossa Iracema – que foca em educação ambiental para a comunidade através de artes plásticas sustentáveis – contesta essa lógica. Atuante na defesa costeira após anos vivendo na Oceania, Comaru aponta que a mistura dos resíduos inviabiliza o reaproveitamento. “A prefeitura comemora que a gente gerou 120 toneladas de lixo no Réveillon em todos os polos. E a gente conseguiu dar pra cooperativas – dar não, doar não, porque os caras estavam trabalhando igual uns condenados no Réveillon – sete toneladas. Não se pode comemorar sete toneladas em cima de 120 toneladas geradas”, critica Comaru. A matemática é direta: menos de 6% do que foi recolhido voltou para a cadeia produtiva, de acordo com o portal oficial da Prefeitura. O restante é desperdício de matéria-prima e poluição potencial.
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Veja o que já enviamosPara Comaru, a celebração desses números mascara a falta de uma política estrutural de coleta seletiva e educação ambiental. “Não se pode comemorar você sair da praia no Réveillon e olhar para aquele mar de lixo na praia e esquecer que um monte já entrou dentro do oceano por causa do vento, um monte já foi enterrado por causa do vento e por aí vai. Se tivesse chovido era pior, entrava ainda mais pelos bueiros, porque todos os caminhos levam ao mar”, alerta o ativista.
O primeiro plástico fabricado, ele ainda segue na natureza. Aquilo lá nunca sai, fica para sempre ali
O que compõe essa montanha de lixo? Majoritariamente, o plástico de uso único. Copos para bebidas, pratos, talheres e embalagens que cumprem sua função em minutos, mas permanecem no ecossistema por séculos. O professor Paulo Sousa, doutor em Oceanografia pela USP e docente do Labomar, da Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que a percepção pública sobre o desaparecimento do lixo é falha. “Nós devemos ter visto na escola que existe uma tabela, uma figura mostrando o tempo de decomposição das coisas, né? O plástico, ele não desaparece. Ele se desfragmenta em pedaços menores. Então, o plástico está sempre por aí”, explica o pesquisador.
Como realizar uma análise precisa sobre os resíduos e a operação de limpeza pós-evento? A resposta é simples: não sabemos. E o motivo não é a inexistência de dados, mas o difícil acesso a eles. Esta reportagem dedicou semanas solicitando informações junto aos órgãos oficiais, mas encontrou um ciclo de isenção de responsabilidades.


A busca começou na Secretaria de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma), da Prefeitura de Fortaleza. Ao serem questionados, a pasta declinou a competência e indicou que os dados estariam sob tutela do Estado, especificamente na Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema), que, por sua vez, devolveu a demanda para o município, reenviando nossa equipe à Seuma. Neste segundo contato, a secretaria municipal mudou o direcionamento, apontando um terceiro ator: a Secretaria Municipal da Conservação e Serviços Públicos (SCSP). Esta última, no entanto, quebrou o ciclo de respostas evasivas, já que eles não se deram nem o trabalho de responder. Até o fechamento desta matéria, a SCSP não retornou aos nossos contatos.
A Praia de Iracema, bem na zona central da orla urbana de Fortaleza, é conhecida por ser um ponto turístico boêmio com vida noturna e espaços culturais frequentados por toda população da cidade. No período de férias de verão (de dezembro a fevereiro), o número de banhistas aumenta significativamente; além disso, a Praia de Iracema é o principal local de shows e festas da cidade, o que também contribui para o aumento de público no local.
Embora a quantidade de frequentadores da praia seja importante para a economia da cidade, esse movimento revela riscos quando envolve um problema recorrente, que virou pauta para a Organização das Nações Unidas (ONU) em 2025: a poluição dos oceanos e o descarte de lixo. E, na Festa de Réveillon 2026 os números foram altos, cerca de 51 toneladas de lixo foram recolhidos após a festa apenas em Iracema, e dessa quantidade, apenas 3 toneladas eram de lixo reciclável.
Em abril de 2025, Fortaleza aderiu ao Pacto pelo Desenvolvimento Sustentável “Meu Município pelos ODS”, com assinatura da Carta Compromisso. O Pacto, celebrado com o Governo Federal, tem como objetivo alcançar os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU no período de 2025 a 2030. Este projeto busca fortalecer a implementação da Agenda 2030 no Brasil, e os compromissos da Prefeitura incluem a criação de uma Comissão Municipal para os ODS, a elaboração de um Diagnóstico Situacional do Desenvolvimento Sustentável, um Plano de Ação e um Relatório Local Voluntário (RLV). Uma iniciativa que abrange as dimensões ambiental, social e de governança.


O que os olhos não veem
Se a burocracia estatal esconde os números do presente , a ciência projeta um futuro alarmante para o que não é recolhido. Quando os caminhões de limpeza vão embora e a “estética” da praia é restaurada, o problema não desaparece; ele apenas muda de endereço e de tamanho.
O pesquisador Paulo Sousa alerta que a ideia de que o plástico some é uma “ilusão perigosa”. O material deixado na orla sofre a ação do sol e da maré, fragmentando-se em partículas minúsculas: os microplásticos. Esses fragmentos se misturam à areia e à água, tornando-se praticamente impossíveis de recolher, mas fáceis de ingerir pela fauna marinha. A persistência do material é assustadora:
“O primeiro plástico fabricado, ele ainda segue na natureza. Aquilo lá nunca sai, fica para sempre ali”, enfatiza o doutor em Oceanografia. Além do que é deixado diretamente na areia, a praia acaba sendo o destino final de resíduos produzidos a poucos quilômetros dali. Sousa explica que o lixo viaja, carregado pelas chuvas e pelo sistema de drenagem urbana.
“Esse plástico é transportado das áreas e cidades mais afastadas até o litoral. Então, nós temos cidades que são afastadas do litoral, mas que contribuem efetivamente com o lixo nas praias”, detalha.
Todo lixo acumulado gera problema… Atração de vetores de doenças é um prejuízo para a saúde pública
Isso cria uma “problemática global”, onde a orla recebe não apenas o rejeito da festa, mas o descarte incorreto de todo o continente. O resultado dessa soma chega ao prato: uma pesquisa realizada pelo Labomar em 2019, indica que oito em cada dez peixes na orla de Fortaleza podem conter esses fragmentos plásticos.
O lixo não é apenas um amontoado de sujeira; ele conta a história de quem frequenta cada pedaço da praia. Segundo o professor, os resíduos funcionam como um marcador social, revelando padrões de renda e comportamento ao longo da orla. Em áreas nobres, como a Praia do Meireles, o perfil do lixo reflete o estilo de vida de um público majoritariamente jovem e com maior poder aquisitivo. Ali, o vilão tem tamanho pequeno, mas impacto gigante.
No entanto, a “assinatura” do lixo muda conforme se avança para regiões com menor poder econômico. O pesquisador aponta que é possível correlacionar os tipos de detritos com o PIB da vizinhança. “Na costa de Fortaleza, a gente percebe que as áreas com menores PIBs” apresentam uma composição de resíduos diferente daquelas onde “as pessoas têm uma condição social, financeira melhor”, explica o professor Paulo Sousa
Essa desigualdade geográfica define não apenas o tipo de lixo, mas quem adoece por causa dele. Enquanto o microplástico contamina o mar, o lixo macroscópico que se acumula em terra vira um problema urgente de saúde pública. A geógrafa e educadora ambiental Érica Pontes é enfática ao relacionar o acúmulo de resíduos pós-festa com a proliferação de vetores de doenças.
“Todo lixo acumulado gera problema… Atração de vetores de doenças é um prejuízo para a saúde pública”, explica. Ela destaca que Fortaleza enfrenta um cenário grave com a dengue e que garrafas e copos descartados incorretamente se tornam criadouros ideais. No entanto, o risco não é democrático.
Erica denuncia uma desigualdade brutal na gestão da limpeza: “Na Orla, onde tem os grandes hotéis, os grandes hotéis dão o seu jeito… vão fazer a limpeza muito rapidamente, vão resolver aquele problema”, afirma.
A poucos metros dessa “bolha de limpeza” turística, comunidades históricas vivem outra realidade. Erica cita o exemplo do Poço da Draga, que, apesar de vizinho à área nobre, sofre com a permanência dos rejeitos.
Para os moradores dessas áreas, o lixo da festa alheia resulta em riscos reais. Além da dengue, Érica lembra que o plástico é derivado do petróleo e seu acúmulo contribui para o aquecimento local. “A gente já bateu um grau e meio a mais”, alerta ela sobre a emergência climática, reforçando que o calor extremo e a sujeira sobram desproporcionalmente para quem tem menos recursos para se proteger.


“Lavagem cerebral do bem”
E é justamente a poucos quilômetros desses dessa região negligenciada, no epicentro da festa, que a origem desse transbordo se revela todas as noites. Enquanto a comunidade vizinha lida com o saldo invisível da poluição, o “palco” principal expõe sua ressaca material assim que a música para. Quando a última luz dos holofotes se apaga no Aterro da Praia de Iracema, a verdadeira operação de retirada começa.
A linha de frente mais vital e invisível é formada pelos catadores. São eles que, nas primeiras horas da manhã, vasculham as pilhas de resíduos misturados para resgatar o que tem valor. O dado nacional é um testemunho de sua importância paradoxal: 90% de tudo que é reciclado no Brasil passa por suas mãos, segundo o IBGE. “Eles são os nossos grandes heróis, carregam o mundo nas costas, de fato, e são extremamente invisibilizados”, define Agustina Behar, 26, voluntária do Coletivo Nossa Iracema. Nos grandes eventos, que injetam milhões na economia local, esses profissionais trabalham sem estrutura, disputando o material reciclável com o lixo orgânico e os rejeitos em lixeiras inadequadas.
A gente tem quatro pulmões. O esquerdo, o direito, o floresta e o oceano
É contra essa lógica que o Coletivo Nossa Iracema atua. Mais do que um grupo de limpeza, é um movimento de denúncia política. André ataca o que chama de “máfia do lixo”: um sistema onde a empresa de limpeza pública lucra com o volume de resíduos enviado ao aterro. Uma coleta seletiva eficaz, que valorizasse os catadores, reduziria esse volume e, portanto, parte do faturamento. A gestão, para ele, prefere a maquiagem verde, ou seja: celebrar a remoção de toneladas de lixo a uma solução que ataque a raiz do problema.
Por isso, o coletivo exige estrutura real nos eventos: catadores formalmente contratados, coletores sinalizados e equipes de educação ambiental. André defende que artistas usem seu palco para conscientizar “vocês querem ser o show que vai gerar esse lixo que vai ficar na praia?”, provoca, ao sugerir que os produtores mobilizem as bandas.
Mas a resistência mais profunda é cultural. Trata-se de construir uma Cultura Oceânica, conceito que une a educadora Érica Pontes e o ativismo de rua. É sobre romper a ideia do mar como recurso infinito ou depósito. “A gente tem quatro pulmões”, ensina André. “O esquerdo, o direito, o floresta e o oceano”. Ele explica que 55% do oxigênio que respiramos vem do fitoplâncton marinho. Entender essa conexão é revolucionário. Para Agustina, o voluntariado funciona como uma “lavagem cerebral do bem”, uma reprogramação do olhar que torna o canudo descartável, de repente, inaceitável.
“A maior ameaça ao planeta é pensar que outra pessoa irá salvá-lo”. A frase, do explorador Robert Swan, transmitida por André, ecoa como síntese da luta. Eles limpam o palco, sim. Mas sua missão maior é mudar o roteiro, é fazer com que a cidade pare de produzir o lixo da festa e, finalmente, reconheça o oceano não como cenário, mas como o pulmão que sustenta a vida na própria areia onde se dança.
*Clara Freire, Luiz Ribeiro, Lorena Alves e Ester Rodrigues são graduandos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará
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