Na Praia do Futuro, a dura subsistência de quem vive do lazer alheio

Ambulante vende óculos na Praia do Futuro: trabalho sem infraestrutura de apoio e com calor cada vez mais extremo (Foto: Lavínia Fonseca)
Ambulante vende óculos na Praia do Futuro: trabalho sem infraestrutura de apoio e com calor cada vez mais extremo (Foto: Lavínia Fonseca)
Ambulante vende óculos na Praia do Futuro: trabalho sem infraestrutura de apoio e com calor cada vez mais extremo (Foto: Lavínia Fonseca)

Trabalhadores ambulantes enfrentam falta de estrutura de apoio e calor extremo: rotina de improviso e informalidade em ponto turístico de Fortaleza

Por Jornalismo - Universidade Federal do Ceará | ODS 10ODS 8

Publicado em 31/07/2026 - 00h31

Tempo de leitura: 15 min

(Ana Alice Freire, Laura Diógenes, Lavínia Fonseca e Raiza Souza*) – O sol ainda sobe devagar quando a areia da Praia do Futuro começa a ganhar movimento. Antes que os primeiros banhistas se acomodem nas barracas, já tem gente trabalhando. Corpos que conhecem o ritmo do vento, o peso do isopor, a altura da maré, a força do calor que virá mais tarde. Para quem observa de fora, a praia é cenário de lazer; para quem vive dela, é chão de trabalho, espaço de disputa e, sobretudo, de resistência cotidiana.

Os trabalhadores ambulantes surgem quase como parte da paisagem. São homens e mulheres que atravessam a faixa de areia todos os dias, muitas vezes sem tempo nem espaço horário -fixo para comer, beber água ou ir ao banheiro. Vendem coco gelado, camarão, queijo coalho, massagens, pequenos serviços que garantem o “trocadinho” diário. Não há garantia de quanto se vai ganhar; há apenas a certeza de que é preciso estar ali, faça sol ou faça chuva.

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Rotina marcada pela incerteza. Em dias de alta estação, o fluxo de turistas aquece as vendas; em outros, a praia parece larga demais para tão poucos clientes. O clima dita o ritmo: no verão, o sol castiga; no inverno, a chuva molha mercadorias, espanta fregueses. “Tem dia que você não tem tempo nem de comer, nem de ir ao banheiro. Em outros, a gente sai daqui sem fazer nada”, resume Duda Santos, massoterapeuta que trabalha há mais de uma década na orla.

Entre esses trabalhadores, há histórias longas, atravessadas por décadas. Alguns estão ali há 20, 30 anos, criaram filhos e netos à sombra das barracas, fizeram da orla uma extensão de casa. Moram perto, em comunidades vizinhas, porque o deslocamento custa caro e o tempo precisa ser economizado. Para Manoel Ferreira, vendedor de coco e camarão, essa proximidade é necessidade: “A gente mora aqui porque se for pra outro canto fica mais difícil. Transporte custa dinheiro. Aqui, pelo menos, dá pra ganhar o pão de cada dia”.

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A proximidade, no entanto, cobra seu preço. A maresia corrói eletrodomésticos, móveis e estruturas prediaisdomésticas. Vive-se trabalhando para repor o que o sal destrói. “Você compra uma geladeira hoje, com três anos não presta mais. Fogão, se durar dois anos, é muito”, conta Manoel, apontando para o mar como quem aponta para a origem de um desgaste inevitável.

Eles não têm banheiro, certo? E os barraqueiros não querem que eles utilizem o banheiro das barracas. Eles não têm ponto de energia para carregar a bateria do celular nem de maquininha. Eles não têm bebedouros. Eles não têm lixeira seletiva

Cícera Silva
Presidenta da Associação das Mulheres Empreendedoras do Ceará

Apesar disso, há afeto. Muitos dizem gostar do que fazem. Ali, a informalidade aparece menos como escolha e mais como única alternativa possível. O trabalho é duro, mas é digno. É o que garante o pão de cada dia. “Nada melhor do que trabalhar pra você mesmo”, diz Duda. “Aqui eu faço meus horários, tenho liberdade. Trabalhar pros outros, às vezes, adoece mais do que o cansaço físico.”

O problema é que essa dignidade raramente é reconhecida. Os trabalhadores relatam a ausência quase completa de infraestrutura básica: não há banheiros públicos, nem bebedouros, nem pontos de energia para carregar celulares ou maquininhas de pagamento. Muitos são impedidos de usar os banheiros das barracas. “É desumano. Ninguém tem onde beber água, ninguém tem banheiro”, afirma Cícera Silva, presidenta da Associação das Mulheres Empreendedoras do Ceará (AME-CE). Segundo ela, quem trabalha na areia vive sob constante improviso e vulnerabilidade.

Manoel Ferreira, vendedor de coco e camarão, na Praia do Futuro: "aqui dá para ganhar o pão de cada dia" (Foto: Arquivo Pessoal)
Manoel Ferreira, vendedor de coco e camarão, na Praia do Futuro: “aqui dá para ganhar o pão de cada dia” (Foto: Lavínia Fonseca)

Do outro lado da paisagem, as grandes barracas se impõem com estruturas sólidas, cardápios padronizados e reconhecimento turístico. Para muitos ambulantes, a sensação é clara: a praia parece pensada prioritariamente para empresários e visitantes com maior poder de consumo. “A Praia do Futuro é pensada só para os empresários”, diz Cícera. “O trabalhador vende o produto, mas ninguém olha pro rosto dele. É como se não existisse.”

Ainda assim, o dia segue. Um vendedor de coco corta a fruta com habilidade aprendida em anos de prática. Uma massoterapeuta atende clientes sucessivos, usando o próprio corpo como ferramenta de trabalho, enquanto planeja concluir a faculdade e ampliar seus serviços. Outro ambulante negocia preços com cuidado, sabendo que um cliente bem tratado pode voltar amanhã. “Quando você trata bem o cliente, ele retorna”, explica Manoel. “A gente vive disso.”

Ao fim da tarde, quando o sol começa a cair e a areia esfria, muitos recolhem suas coisas. Alguns voltam cedo, se o movimento foi fraco; outros insistem até o último cliente. Não há garantia de descanso: no dia seguinte, tudo recomeça.

Ambulante oferece seus produtos aos clientes das barracas na Praia do Futuro: rotina de improviso e informalidade em ponto turístico de Fortaleza (Foto: Arquivo Pessoal)
Ambulante oferece seus produtos aos clientes das barracas na Praia do Futuro: rotina de improviso e informalidade em ponto turístico de Fortaleza (Foto: Lavínia Fonseca)

Trabalho decente para quem?

A invisibilidade dos trabalhadores autônomos da Praia do Futuro não é casual. Ela está diretamente ligada à forma como o litoral de Fortaleza foi historicamente reconfigurado. Como explica o doutor em geografia Otávio Barra, o litoral nem sempre ocupou o lugar de prestígio social e econômico que ocupa hoje. Durante séculos, foi visto como espaço associado à subsistência de comunidades pesqueiras. A partir do século XX, especialmente com o avanço do turismo, da especulação imobiliária e de grandes obras de infraestrutura, ele foi progressivamente apropriado pelo capital econômico.

Nesse processo, o trabalho que sustenta essa economia litorânea foi sendo empurrado para a informalidade e para a precarização. A rotina descrita por Cícera revela um cotidiano atravessado pela incerteza: falta de licenças definitivas para trabalhadores da areia, ausência de infraestrutura básica, insegurança jurídica e fiscalizações historicamente punitivas. A impossibilidade de investir em equipamentos, com medo de apreensões ou demolições, transforma o trabalho em um exercício permanente de sobrevivência.

Quando o litoral já estava intensamente ocupado, e foram marcadas por um viés elitista. As grandes obras costeiras, como a expansão do Porto do Mucuripe, exemplificam essa lógica desenvolvimentista. Embora apresentadas como motores do crescimento econômico, elas provocaram impactos socioambientais profundos, como erosão costeira, alteração da dinâmica sedimentar e aumento da vulnerabilidade de determinadas áreas. Os efeitos das mudanças climáticas e da elevação do nível do mar atingem de maneira mais intensa as populações que já vivem em situação de precariedade, reforçando desigualdades históricas.

Ainda assim, a Praia do Futuro permanece como espaço de acolhimento para sujeitos excluídos do mercado formal de trabalho. Cícera Silva chama a praia de “mãe de todos”, especialmente para mulheres acima dos 50 anos, que encontram ali uma possibilidade de renda e autonomia. Esse dado revela uma contradição central: o mesmo território que exclui é também aquele que permite a sobrevivência. É nesse paradoxo que se inscreve a luta por reconhecimento e dignidade.

Ambulante trabalha sob o sol na Praia do Futuro: aumento das temperaturas e a falta de áreas com sombra, pontos de hidratação e infraestrutura mínima tornaram a rotina dos ambulantes ainda mais cansativa e insegura (Foto: Arquivo Pessoal)
Ambulante trabalha sob o sol na Praia do Futuro: aumento das temperaturas e a falta de áreas com sombra, pontos de hidratação e infraestrutura mínima tornaram a rotina dos ambulantes ainda mais cansativa e insegura (Foto: Raíza Souza)

A atuação da AME representa uma ruptura importante nesse cenário. A associação conquistou permissões, organizou espaços, promoveu capacitações e instituiu a fiscalização educativa, mostrando que o avanço em direção ao ODS 8 (Trabalho decente e crescimento econômico) da ONU passa pela organização coletiva e pela escuta dos trabalhadores. No entanto, como afirma Cícera, essas conquistas só foram possíveis por meio de luta constante, e não por iniciativa espontânea do poder público. A presidente da AME complementa que comunidades tradicionais e populações vulneráveis raramente são ouvidas de forma efetiva, e, mesmo quando participam de audiências públicas, suas demandas frequentemente não aparecem nos planos finais.

A negligência também se manifesta na atuação do poder público, que muitas vezes enxerga esses trabalhadores sob a ótica da fiscalização e da informalidade, sem oferecer alternativas de regularização, apoio ou proteção social. A ausência de políticas públicas voltadas para o trabalho decente na orla evidencia um modelo de crescimento econômico que prioriza o lucro e o turismo, mas ignora o bem estar econômico e ambiental. Ao expor suas contradições, a realidade dos ambulantes revela que não há desenvolvimento sustentável considerando o clima, o território e as pessoas que mantêm a economia funcionando diariamente nas praias.

A pujança econômica é visível na Praia do Futuro. O fluxo constante de turistas e moradores movimenta o comércio, fortalece o consumo e transforma a orla em um dos principais pontos de geração de renda econômicos da cidade de Fortaleza. Nesse cenário, os trabalhadores ambulantes desempenham um papel essencial, garantindo serviços, alimentos e produtos que sustentam a experiência turística e monetária do local. Muitos desses vendedores ambulantes formais e informais fomentam o crescimento econômico do lugar rendimento da praia, mesmo que, muitas das vezes, não garantem seu próprio sustento. O crescimento acontece, mas é desigual e negligente.

Logo, não há desenvolvimento já que, apesar desse crescimento, faltam políticas públicas que considerem os impactos climáticos e sociais sobre quem trabalha diariamente exposto ao sol, ao vento e às intempéries. O aumento das temperaturas e a falta de áreas com sombra, pontos de hidratação e infraestrutura mínima tornaram a rotina dos ambulantes ainda mais cansativa e insegura. “Eles não têm banheiro, certo? E os barraqueiros não querem que eles utilizem o banheiro das barracas. Eles não têm ponto de energia para carregar a bateria do celular nem de maquininha. Eles não têm bebedouros. Eles não têm lixeira seletiva”, reclama Cícera Silva.

Os ambulantes ainda precisam enfrentar a instabilidade das vendas, especialmente durante a chamada ”baixa temporada”. Nesses períodos, a redução do fluxo de visitantes e turistas impacta diretamente na renda, tornando o trabalho ainda mais incerto e dificultando o sustento diário. A negligência também se manifesta na atuação do poder público, que muitas vezes enxerga esses trabalhadores sob a ótica da fiscalização e da informalidade, sem oferecer alternativas de regularização, apoio ou proteção social.

A ausência de políticas públicas voltadas para o trabalho decente na orla evidencia um modelo de crescimento econômico que prioriza o lucro e o turismo, mas ignora o bem estar econômico e ambiental. Ao expor suas contradições, a realidade dos ambulantes revela que não há desenvolvimento sustentável considerando o clima, o território e as pessoas que mantêm a economia funcionando diariamente nas praias.

Mesmo com uma quantidade significativa de barracas legalizadas gerando lucro na praia nesse futuro, a dinâmica econômica na orla não se sustenta sem o trabalho dos ambulantes. Ao investir em melhorias e garantir condições mais dignas e seguras para esses trabalhadores, o poder público contribuiria diretamente para a saúde, dignidade e qualidade de vida de quem vive do comércio informal naquela região.

Além disso, essas ações estariam em concordância com as políticas públicas voltadas para a própria gestão da praia e com os princípios da ODS 8 – em abril de 2025, Fortaleza aderiu ao Pacto pelo Desenvolvimento Sustentável “Meu Município pelos ODS”, ação celebrada com o Governo Federal, que tem como objetivo alcançar os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU até 2030. Promover o trabalho digno da orla significa avançar não apenas para os ambulantes, mas também para o equilíbrio social e ambiental de ecossistemas da praia.

Ambulante na Praia do Futuro: trabalhadores reclamam de falta de banheiros e de locais para recarga de celulares e máquinas de pagamento (Foto: Arquivo Pessoal)
Ambulante na Praia do Futuro: trabalhadores reclamam de falta de banheiros e de locais para recarga de celulares e máquinas de pagamento (Foto: Lavínia Fonseca)

Emprego e informalidade na Praia do Futuro

A Praia do Futuro é famosa entre os mais de 600 mil turistas por uma estratégia de empreendimento incomum para a maioria das praias brasileiras: as barracas. Apreciadas pelo conforto, elas oferecem cardápios extensos, rede de wi-fi, banheiros com duchas, música, piscinas e até parques aquáticos. Em janeiro de 2025, as barracas da Praia do Futuro foram reconhecidas como Patrimônio Cultural Brasileiro.

Ocupando seis quilômetros da orla de Fortaleza, as 70 barracas da praia faturam cerca de R$300 milhões ao ano a partir de seus 3,5 milhões de frequentadores. De acordo com a Associação dos Empresários da Praia do Futuro, em 2024, os empreendimentos geraram, em média, 15 mil empregos diretos e indiretos.

Mas, para a alegria de uns, desagrado de outros e sobrevivência de muitos, os trabalhadores autônomos conquistam o sustento por entre as mesas dos grandes estabelecimentos. O Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará aponta que, no mesmo ano, o número de trabalhadores informais cresceu em 13,2% em comparação aos quatro anos anteriores – ou seja, foram 230 mil novos trabalhadores dessa modalidade no mercado de trabalho cearense.

Ana Alice Freire, Laura Diógenes, Lavínia Fonseca e Raiza Souza são graduandos do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará

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Jornalismo - Universidade Federal do Ceará

Reportagens produzidas por estudantes da disciplina de Jornalismo Ambiental da Universidade Federal do Ceará, sob orientação da professora e jornalista Rosane Nunes

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