ODS 1
De que adiantam armários lotados se as roupas não nos protegem do coronavírus?




Modelo usa máscara no desfile da Neonyt durante a Berlin Fashion Week outono/inverno 2020, em janeiro (Foto: Alexander Koerner/Getty Images for MBFW)
Em artigo, Yamê Reis reflete sobre como a pandemia pode mudar o mundo da moda
No começo de 2020, logo que a epidemia começava na China, eu estava na Berlin Fashion Week e pude acompanhar o desfile da Neonyt, a feira de Moda Sustentável, que me impactou tremendamente. A Moda mostrava ali seu incrível poder de prever novos comportamentos, fazendo desfilar naquela passarela da Kraftwerk os seres do futuro, humanos protegidos por máscaras e equipamentos vestíveis sobrepostos ao corpo, mais importantes e essenciais que as roupas que estavam carregando. Aquelas imagens não me saíram da cabeça: que mundo era aquele tão disruptivo onde os nossos corpos precisavam de tantos equipamentos de proteção?
Um mês depois, viajei para a Fashion Week de Milão, onde vi nas ruas muitos asiáticos usando máscaras faciais antipoluição de marcas de luxo. Minha busca chegou a Gucci, Louis Vuitton e Chanel, mas também a muitos jovens estilistas como a chinesa Masha Ma, que em 2014 havia desfilado máscaras com cristais Swarovsky na Paris Fashion Week, causando grande comoção nas redes sociais.
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Porém, desde 2010, quando os níveis de poluição em Shangai atingiram patamares apocalípticos, a China começou a conviver com as máscaras faciais como acessório essencial de saúde e proteção respiratória. Para amenizar o cenário de distopia e ficção científica, surgiram empresas como a Vogmask que, através de parcerias criativas com novos designers, tornaram o acessório um produto de moda.
Mas no cenário global de 2020, as máscaras reaparecem com um novo significado, a proteção essencial para salvar vidas, e todo o planeta se mobiliza para que elas sejam fabricadas em velocidade máxima. Milhares de tutoriais de máscaras caseiras se espalham pelas redes numa corrente solidária de cuidado e empatia, iniciando um movimento coletivo de fazer à mão, de distribuir sobras de tecidos entre as costureiras para protegerem suas famílias e suas comunidades, podendo até gerar alguma renda para a sobrevivência imediata.
As marcas de moda têm a oportunidade de se tornarem relevantes nesse novo mundo gerando produtos que salvem vidas, que ajudem a sua comunidade a atravessar a pandemia de forma solidária e transparente. Quem quer mais um vestido novo quando já descobrimos que termos armários lotados de roupas não nos ajudaram a enfrentar esse momento de sobrevivência?
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