Menu degustação: para mulheres, julgamento de Bolsonaro tem sabor especial

Mesmo antes de ser presidente, Jair sempre defendeu posturas misóginas, e seus desmandos no governo tiveram impacto agravado sobre a população feminina

Por Júlia Pessôa | ODS 5

Publicado em 02/09/2025 - 07h00 (Atualizado há 10 meses)

Tempo de leitura: 7 min

Eu não sei vocês, mas eu tenho o delicioso hábito, como disse aqui em outra coluna, de celebrar conquistas, mesmo as menores. É por isso que tem uma garrafa do meu vinho favorito gelando para selar este dia: 2 de setembro de 2025. O dia em que Jair Bolsonaro (bati na madeira três vezes só de escrever esse nome) finalmente se senta diante da Justiça, acusado de tentar dar um golpe contra a democracia.

Tudo bem que o sabor é um tanto de prato requentado, já que Jair deveria ter respondido à Justiça por vários outros despautérios cometidos durante os quatro anos em que fomos obrigados a engolir sua intragável figura no Palácio do Planalto. Mas, na gastronomia e na vida, aprendi que têm seu charme gastronômico uma pizza do dia seguinte, um bem-casado no café da manhã depois de uma festa de casamento, uma boa carne de panela do almoço que vira recheio molhadinho e saboroso de um sanduíche.

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E para nós, mulheres com a sanidade mental em dia, ver Bolsonaro como réu e sendo julgado tem sabor de iguaria. Tudo bem que em menu degustação, uma porção pequeníssima, que nem de longe mata a fome de justiça – ou de vingança, não serei hipócrita. Mas como venho insistindo, trata-se de celebrar pequenas vitórias, sem nunca perder de vista quais são as maiores. Degustar o amuse-bouche comedido e mirar no banquete. Festejar o início deste julgamento e mirar na prisão. Como já disse também em outra oportunidade, com Bolsonaro eu também falho com Angela Davis e meu antipunitivismo vai para as cucuias.

Bolsonaro no banco dos réus durante depoimento no STF: para mulheres, julgamento de Jair tem sabor especial (Foto: Antonio Augusto / STF - 10/06/2025)
Bolsonaro no banco dos réus durante interrogatório no STF: para mulheres, julgamento de Jair tem sabor especial (Foto: Antonio Augusto / STF – 10/06/2025)

Bolsonaro foi o presidente que escolheu o extermínio. O país chegou a mais de 700 mil mortos pela Covid-19 enquanto ele imitava pessoas sem ar, dizia “e daí?”, zombava de quem perdeu familiares e defendia um “kit Covid” sem qualquer eficácia. A CPI da Pandemia mostrou: quatro em cada cinco mortes poderiam ter sido evitadas com medidas sérias, o que significa cerca de 400 mil vidas poupáveis. Mas Bolsonaro atrasou a compra de vacinas, recusou ofertas da Pfizer, e ainda mergulhou seu governo em negociatas obscenas, como a Covaxin, que poderia ter custado milhares de vidas. Tudo isso enquanto pregava a imunidade de rebanho pela infecção, como se a morte fosse um projeto. E eu acho que era.

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Contra nós, mulheres, ele não se limitou a ofensas eventuais. Fez de sua retórica um programa de governo. Disse que a então deputada petista Maria do Rosário “não merecia ser estuprada” por não ser bonita o suficiente, como se a violência sexual fosse uma cortesia masculina a mulheres escolhidas. Chamou jornalistas de “idiotas” e “canalhas”. Ridicularizou candidatas, debochou de pautas feministas, incentivou a masculinidade violenta.

E foi além das palavras: em 2021, em plena pandemia, cortou 45% da verba destinada à prevenção e ao tratamento do câncer, reduzindo de R$ 175 milhões para R$ 97 milhões os recursos para políticas de rastreamento e combate, como a mamografia.. Para quem enfrentou o câncer de mama, como eu exatamente neste período, esse corte não foi um número no orçamento: foi um contundente “dane-se” a quem tem a finitude da vida enfiada goela abaixo, e que vez ou outra traz um novo mal-estar, como se fosse um refluxo.

Além disso desgraças que se abateram sobre o país inteiro foram especialmente amargas para as mulheres: mães que enterraram filhos na pandemia; mulheres, que mais chefiam lares no país, desassistidas pelo desmonte de políticas públicas; pacientes oncológicas que morreram por falta de acesso a diagnóstico precoce; jovens estudantes que foram obrigadas a abandonar seu futuro com o sucateamento das universidades públicas. E também porque nos lembra Simone de Beauvoir: “Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos nunca são adquiridos. Você terá que permanecer vigilante durante toda a sua vida.”

Engolimos muito sapo, mas o retrogosto amargo de cada uma das canalhices deste homem nos deixou e deixa vigilantes. No cardápio da história, Bolsonaro não passa de um prato estragado que não precisaremos mais engolir. E embora seja apenas, como eu disse, um menu degustação, tem gostinho de sobremesa da sobrevivência: tem lá seu amargor, mas é doce o bastante para nos lembrar que não fomos derrotadas. E eu sempre brindarei a isso. Tim-tim!

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Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

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