Masculinidade em pane: homens não sabem o que fazer quando deixam de ser necessários

Com o (lento) avanço dos direitos femininos, mulheres deixaram de precisar da figura masculina, bagunçando a cabeça de quem sempre foi recurso e se tornou acessório

Por Júlia Pessôa | ODS 5

Publicado em 19/05/2026 - 09h00 (Atualizado há 2 meses)

Tempo de leitura: 6 min

Infelizmente para toda a humanidade, qualquer pessoa minimamente on-line viu o festival de mentiras distorcidas a favor do machismo na maldita entrevista que foi ao ar na Globonews na última semana. É essa mesma, que circulou por nossos reels e não podemos desver, em que o ator cristão e “do bem” teve a pachorra de dizer que no Brasil, “mais mulheres mataram homens do que homens mataram mulheres”, o que nunca aconteceu.

Leu essa? Homens, a culpa é de vocês

Muito pelo contrário – e eu já escrevi sobre isso aqui -, mesmo quando todos os índices de mortes violentas no Brasil caíram, as taxas de feminicídio cresceram. Ou seja, mesmo quando se mata menos no país todo, as mulheres continuam sendo mais assassinadas apenas por serem mulheres, e por homens. Não dá pra estarmos em 2026 e usar mentiras para validar discursinho canalha de vitimismo feminino e de opressão dos homens.

Surpreendentemente, numa frase o global tem razão: os homens precisam aprender a ser homens. Obviamente não pelos motivos imbecis que ele apresenta e muito menos com os ensinamentos dele. Mas é fato que, com a nítida ruína do modelo de macho provedor, bruto, insensível e que não expressa sentimentos, os homens  – nem todo homem, etc., insira aqui o chororô de exceção de sua escolha – estão feito cachorros correndo atrás dos próprios rabos, tentando entender seu papel no mundo.

Receba as colunas de Júlia Pessôa no seu e-mail

Veja o que já enviamos

Verdade seja dita: durante séculos, as mulheres precisaram ter um homem a seu lado como recurso de sobrevivência para existir no mundo. No Brasil, até 1962, com o Estatuto da Mulher Casada, até mulheres casadas ainda eram juridicamente tratadas como relativamente incapazes em vários aspectos da vida civil, dependentes da autorização do marido para atos como trabalhar fora de casa ou viajar.

Foto em preto e branco de homem diante de vidro, uma janela. Ele está de costas e com a mão direita levantada. Na imagem, aparece seu reflexo na parte inferior. Masculinidade tóxica alimenta machismo
Ideia de masculinidade baseada em prover e dominar já está mais que ultrapassada (Foto: Pexels)

Também levou tempo para que a autonomia financeira deixasse de ser barrada por práticas e exigências discriminatórias. E PASMEM: no país cujo número de mães solo é maior que a população inteira de Portugal, as mães só passaram a poder registrar suas crias em cartório sem a presença do pai em 2015. Ou seja: durante muito tempo, um homem era, para muitas coisas, necessário

Com o lento avanço dos direitos das mulheres e conquistas do que deveriam ser direitos universais, a gente foi deixando de precisar que um macho permita que a gente faça ou tenha as coisas. Uma mulher em 2026 precisa de um homem para absolutamente nada que ela não queira dele. E isso bugou o cérebro de quem sempre navegou pelo mundo sendo uma “necessidade”.

Nessa nossa virada do “precisar ter um homem do lado” para “querer ter um homem do lado”, os valores que fazem a gente querer a companhia de um cara (em um date ou na vida) não passam pelo que ele pode nos proporcionar – posses, segurança, viagens, autonomia ou o que for – mas sim pelo que ele é. E pergunte a qualquer mulher solteira se tá fácil querer a companhia de um homem pelo que ele é. Spoiler: não está.

Parece que em vez de liberdade pela figura de provedor, protetor e viril ter caído em desuso, os caras ficaram sem saber como existir diante de outras possibilidades de masculinidade que não seja a arcaica e já entregue pronta. E não tô aqui infantilizando os homens como se precisassem de um manual para entenderem como deve existir. Ser um recurso, ser algo de que as mulheres precisam, é muito mais fácil porque exige pouco esforço e pouca explicação. Mas o querer é volátil e condicional. Deixar de ser recurso para ser acessório (viva Cher) é, de fato, um rebaixamento.

Se antes a capacidade de prover e proteger – entre outros aspectos – era algo que elevava o passe na cotação “do que é ser homem”, hoje elas valem quase nada, porque podemos fazer isso por nós mesmas. A boa notícia é que há diversos outros atributos valorizados nas tantas possibilidades de masculinidades que as mulheres querem perto de si. Em vez de confinados, os homens tem, na minha opinião, oportunidades.

E a maior delas é que parem nos matar e fingir, uns pelos outros, que não o fazem. Sobretudo em rede nacional.

Apoie o #Colabora!

Faça parte da campanha “10 anos, 101 apoiadores” e ajude a fortalecer nosso jornalismo independente e de qualidade. Com apenas R$ 20 por mês (menos de R$ 0,70 por dia), você já contribui para manter histórias e reportagens que fazem a diferença, como esta.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

Comentários

Compartilhe: