“Diga ao povo que fico”

Essenciais em nossas vidas, amizades merecem muito mais: inclusive o direito de acabar

Por Júlia Pessôa | ODS 5

Publicado em 21/04/2026 - 09h30 (Atualizado há 3 meses)

Tempo de leitura: 6 min

Eu sempre acho um pouco de graça quando vejo esses carrosséis de perfis descolados do Instagram contando o grandessíssimo segredo de que “suas amigas também são o amor da sua vida”. Não que a gente não precise ouvir e ler. Como mulher millennial de 40 anos, passei boa parte da vida sendo bombardeada por produtos da cultura pop que prometiam o amor da vida num esbarrão atrapalhado com um homem branco e hétero.

Dá pra compreender que a gente tenha sofrido uma microlavagem cerebral e comprado a ideia de que o amor romântico é o único preenchimento possível da vida. Mas, embora eu tenha visto O Diário de Bridget Jones mais vezes do que deveria, nesse golpe do romance se sobrepor às amizades eu nunca caí – pelo menos não conscientemente. Venho de uma família grande e barulhenta, em que amigos da juventude da minha mãe e minhas tias foram sendo agregados à aldeia. São meus tios e madrinhas, parte indissociável do que me torna uma pessoa. (Uma Pessôa, no meu caso. Perdão, não resisti).

Leu essa? Quanto mais feminista me torno, menos eu romantizo a amizade entre mulheres

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Mesmo quando passei por um relacionamento extremamente abusivo, eu sabia que estava preterindo algo fundamental quando não priorizava minhas amizades. E essa história de afastar mulheres das pessoas importantes para elas é mais velho que andar pra frente. Silvia Federici conta, em A história oculta da fofoca, que desmerecer laços femininos sempre foi um projeto. Quando a palavra gossip (fofoca), que nomeava vínculos íntimos entre mulheres, vira sinônimo de conversa fútil, não estamos mais no campo da semântica, mas de uma estratégia.

No fundo, é um golpe de mestre: você enfraquece alianças, isola mulheres em relações heteronormativas onde o trabalho doméstico e emocional é gratuito, e ainda convence todo mundo de que o problema é que elas “falam demais”. O perigo dessa narrativa é que ela nos rouba o tempo e a coragem de cultivar os laços que importam.

Entender que amizades importantes acabam é uma das tarefas mais difíceis da vida adulta (Foto: Freepik)
Entender que amizades importantes acabam é uma das tarefas mais difíceis da vida adulta (Foto: Freepik)

Toda minha vida adulta foi ancorada nas amizades. Minhas conquistas e perdas foram divididas com pessoas que se tornaram minha proverbial família escolhida. Tenho uma pequena multidão na minha contenção, pronta para me aparar na queda ou comemorar meu voo. E eu também estou lá por elas.

Mas há um perigo (como tudo que é bom na vida): cair no engodo da amizade eterna e incondicional é tão aprisionante quanto o “felizes para sempre”. Se as amizades são laços de liberdade, elas precisam ter a porta de saída sempre destrancada.

Eu ponho tanta fé nas amizades que sou defensora do direito inalienável de que elas acabem. Entender que amizades importantes acabam é uma das tarefas mais difíceis da vida adulta. Compreender que vale muito mais quem fica podendo ir do que a cobrança ou expectativa de algo incondicional. A vida é condicional. E a perspectiva de finitude não anula o que foi vivido; pelo contrário, dá a ele a dignidade do real. O polo oposto de subestimar as amizades é romantizá-las demais e mantê-las a qualquer preço. Ainda que ao custo da saúde mental e da autoestima. Quem nunca?

Frida Kahlo já aconselhava a gente a demorar onde pode amar e se sentir amada. E assim surgem os “amigos de uma vida”: eles vão demorando. Mas só demoram de verdade porque sabem que têm o direito de partir. Quem sabe, sabe.

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Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

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