O que a pandemia escancarou (ainda mais) sobre as mulheres

Muitas enfrentaram uma avalanche de responsabilidades, que não apenas afetaram suas carreiras, mas também sua saúde mental e física

Por Júlia Pessôa | ODS 3ODS 5

Publicado em 18/03/2025 - 09h42 (Atualizado há 1 ano)

Tempo de leitura: 5 min

Você se lembra onde estava pela última vez antes de entrar no confinamento da pandemia? Cinco anos atrás, eu dava as primeiras aulas para algumas turmas de comunicação, e naquele dia, 16 de março, me disseram para dispensar as turmas por conta da covid-19. Eu ainda não estava com medo, e achava que, em uns quinze dias em casa, voltaríamos a ativa. O resto todo mundo sabe como foi. Passamos anos a fio em casa, torcendo, rezando ou fazendo o diabo que fosse para evitar que o negacionismo matasse mais gente – e mesmo assim, só por aqui foram 700 mil vítimas fatais.

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Enquanto isso, enquanto o mundo lutava contra a sombra invisível do vírus e a bem visível de governos autoritários, as mulheres foram confrontadas com um desafio duplo: enfrentar não apenas a ameaça à saúde pública, mas também a carga silenciosa das responsabilidades domésticas e dos cuidados, que pareciam se multiplicar feito Gremlin embaixo de goteira. Responsáveis pelos cuidados com doentes, idosos, crianças e a casa, a restrição ao espaço doméstico transformou todo o tempo em hora útil, e claro, foi ainda pior para mulheres em situações de vulnerabilidade social.

Enfermeira em ambulatório para a covid-19 em São Paulo: pandemia escancarou ainda mais a carga desigual sobre as mulheres (Foto: Cofen / Divulgação - 13/01/2021)
Enfermeira em ambulatório para a covid-19 em São Paulo: pandemia escancarou ainda mais a carga desigual sobre as mulheres (Foto: Cofen / Divulgação – 13/01/2021)

Com escolas e creches fechadas, muitas mulheres viram-se diante de uma avalanche de responsabilidades, que não apenas afetaram suas carreiras, mas também sua saúde mental e física. Estudos revelam que mais de 80% das mulheres na força de trabalho relataram um impacto negativo na saúde emocional.

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No setor de saúde, as mulheres, que compõem a maioria dos profissionais de saúde, estiveram na linha de frente do combate à pandemia, enfrentando riscos maiores de exposição ao vírus, como soldados em uma batalha invisível. Além disso, o aumento das violências domésticas em mais de 50% durante os confinamentos revelou outra face da desigualdade: a falta de segurança para as mulheres em seus próprios lares.

Se, durante os anos de covid-19, fomos roubados de nosso presente e das possibilidades de futuro, hoje, depois de anos de amplo acesso à vacina, temos segurança e estamos de volta para o futuro. Mas é preciso seguir caminhando. A pandemia expôs de modo irreversível a desigualdade de gênero, e tanto sofrimento, individual e coletivo, não pode ter sido em vão.

A pandemia acabou, mas o patriarcado segue saudável e a plenos pulmões – e não há mascara que esconda ou previna que ele se espalhe. É urgente que haja políticas públicas  que priorizem a igualdade de gênero, oferecendo suporte às mulheres no mercado de trabalho, nos trabalhos de cuidado, nos afazeres domésticos, e em todas as esferas da vida. Elas devem, inclusive e prioritariamente, proteger a vida das mulheres.  Um futuro mais justo e igualitário depende necessariamente da erradicação de um vírus muito mais letal que a covid-19, a misoginia.

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Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

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