Que ano é hoje?

Como se o tempo andasse em círculos, não deu nem para curar a ressaca da virada e os Estados Unidos já tinham invadido um país

Por Júlia Pessôa | ODS 16

Publicado em 06/01/2026 - 09h12 (Atualizado há 6 meses)

Tempo de leitura: 6 min

Viramos o ano. Mal pulamos as sete ondas ou fizemos qualquer ritual pedindo bons ventos, mal foram curadas a ressaca da bebida e a das marés… e os Estados Unidos invadiram um país, e deram, mais uma vez, um golpe com interesses econômicos e de dominação. Repito: que ano é hoje?

Virou o calendário, mas o mundo parece ter sido rebobinado à força.

2026, dizem as agendas. Mas os fatos insistem em nos fazer em “ver de novo” uma cena que em absolutamente nada “vale a pena”: Iraque, ao longo dos anos 1990 e 2000. Vietnã, 1965, e depois de novo em 1973. Guatemala, 1954. Chile, 1973. Panamá, 1989. China, 1945. Afeganistão, 2001. Líbia, 2011. A lista é longa, cansativa e sangrenta, e, ainda assim, reincidente, são mais de 30 países invadidos, só para mencionar o período pós-Segunda Guerra. O império tem memória curta, mas método consistente.

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Os Estados Unidos atravessam fronteiras como quem atravessa uma sala própria. Invadem, capturam, administram, exploram. Chamam de intervenção. Vendem como democracia. Embalam em discursos sobre liberdade aquilo que, no fundo, é a velha e nada sofisticada política da força: sugar recursos, controlar territórios, reafirmar poder.

Donald Trump, entre seus secretários de Relações Exteriores, Marco Rubio e da Guerra, Pete Hegseth, na Casa Branca e 2026 começa com Estados Unidos invadindo a Venezuela: que ano é hoje? (Foto: Daniel Torok / White House - 27/12/2025)
Donald Trump, entre seus secretários de Relações Exteriores, Marco Rubio e da Guerra, Pete Hegseth, na Casa Branca e 2026 começa com Estados Unidos invadindo a Venezuela: que ano é hoje? (Foto: Daniel Torok / White House – 27/12/2025)

É inaceitável que, em pleno século XXI, um país seja tomado à força sob a falácia civilizatória de “instalar a democracia”. Democracia não chega em tanque, não se constrói com sequestro, não se impõe por fuzil. Democracia não é mercadoria exportável, e muito menos desculpa geopolítica.

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No Brasil, nós sabemos bem como esse roteiro funciona. O maior período antidemocrático da nossa história, o regime militar, teve amplo apoio, financiamento e beneplácito dos Estados Unidos. A ditadura brasileira não foi um acidente doméstico: foi parte de um projeto continental. E não é coincidência que, décadas depois, tenhamos assistido a um revival grotesco disso com Jair Bolsonaro flertando abertamente com Donald Trump, unidos por um match autoritário em que reina o desprezo pelas instituições, pelo coletivo, pela vida.

O ataque à Venezuela reabre essa ferida histórica latino-americana: a de nunca termos o direito ao tempo próprio. Sempre interrompidos. Sempre roubados. Sempre considerados quintal.

É possível, e inegavelmente necessário, repetir, ainda que o mundo insista em nos empurrar para simplificações infantis: é possível e urgente repudiar a ditadura de Nicolás Maduro e repudiar, ao mesmo tempo, a ação criminosa dos Estados Unidos. Uma coisa não anula a outra. Pelo contrário. Tirania não se combate com tirania. Autoritarismo não se cura com bombardeio.

A soberania da Venezuela não é negociável. A soberania da América Latina não é detalhe colateral da política externa de Washington. Não somos laboratório, não somos cenário, não somos estoque de petróleo à disposição do humor imperial.

Que ano é hoje?, pergunto uma vez mais, porque talvez essa seja a pergunta mais honesta diante do que vivemos. Se o tempo insiste em andar em círculos, cabe a nós recusar o looping. O ano virou, e virar o ano, para nós, precisa significar mais do que trocar o número no calendário. Precisa ser, finalmente, romper com esse passado colonial e imperialista que insiste em se repetir como farsa armada.

Que o tempo ande para frente. E que ninguém mais decida isso por nós.

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Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

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