Mídias e debate público silenciam sobre relação entre violência e racismo, mostra estudo

Manifestação no Rio de Janeiro, logo após a morte de George Floyd, nos EUA (Foto: Barbara Dias / AGIF)

Rede de Observatórios da Segurança faz levantamento em cinco estados e constata que, em 7 mil notícias sobre ações policiais, apenas uma cita a palavra “negro”

Por Bernardo de la Peña | ODS 16

Publicado em 19/08/2020 - 08h32 (Atualizado há 6 anos)

Tempo de leitura: 7 min

Enquanto a taxa de homicídios entre a população brasileira em geral é de 28 por 100 mil  habitantes, esse número é mais que multiplicado por sete quando se trata jovens negros do sexo masculino, na faixa de  19 a 24 anos: os assassinatos são 200 para cada 100 mil pessoas nesse grupo, segundo o 13º Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2019). Diante dessa e das muitas estatísticas comprovando que pretos e pardos são as maiores vítimas de violência no país, é surpreendente a conclusão do relatório anual Rede de Observatórios da Segurança que denuncia um profundo silêncio sobre o tema racial na mídia e no debate público. Um exemplo: de 7062 registros sobre ações policiais monitorados, houve apenas uma menção à palavra negro ou negra nas notícias analisadas. As palavras racismo e racial sequer foram mencionadas

Denominado “Racismo, o motor da violência”, o estudo acompanhou, de junho de 2019 a maio de 2020, veículos de comunicação, redes sociais, grupos de WhatsApp e usou um bot para recolher informações no Twitter em busca de menções a ocorrências de segurança pública e violência em cinco estados: Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro e São Paulo. Os pesquisadores chegaram a 12.559 registros e, aqui, mais uma vez a invisibilização do racismo chama a atenção. Apenas 50 desses eventos estão relacionados a racismo e injúria racial. A porcentagem de informações sobre cor/raça nos casos monitorados também foram poucas e só aparecem em alguns dos 16 indicadores prioritários do monitoramento:  chacinas (7,9%), violência contra a mulher (8,7%), violência contra crianças e adolescentes (15,6%), vitimização de agentes do Estado (18,3%), linchamentos e tentativas (28,3%). 

Ainda segundo o 13º Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2019), mulheres negras são 61% das vítimas de feminicídio. Apesar disso, nas 1.314 ocorrências de violências contra mulheres, como feminicídios, agressões físicas e violência sexual, monitoradas pela rede, são raras as referências a raça ou cor das vítimas. 

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 Diante desses números, os pesquisadores reforçam, no relatório, a urgência de que o debate sobre o racismo seja transversal e estrutural em toda discussão sobre violência e segurança pública. “Reconhecemos que nós, instituições de pesquisa deste campo, muitas vezes deixamos de abordar o tema da raça e do racismo ou não o tratamos com a primazia necessária. Não podemos mais aludir ao racismo como um assunto periférico, uma informação a mais. A discussão racial não deve ser posta em segundo plano como uma problemática a ser tratada no futuro, ela também é, em si, parte do problema. O racismo é reproduzido cotidianamente, inclusive na produção de conhecimento quando a raça é marginalizada e perspectivas antirracistas são silenciadas”, eles afirmam no teto do estudo.

Apesar disso, ressalta o estudo, uma pesquisa do Instituto Locomotiva, de junho de 2020, aponta que 94% dos brasileiros reconhecem que pessoas negras têm mais chances de serem abordadas de forma violenta e mortas pela polícia e que a maioria das operações policiais acontecem em áreas pobres, como favelas. Nas coberturas jornalísticas, no entanto, o monitoramento da Rede apontou o silêncio sobre o tema. Ao buscar termos como  “morte de jovem negro”, “racismo”, “violência racial”, não havia informações. Os pesquisadores, muitas vezes, só percebiam a “dinâmica racial” a partir das imagens. Isso tudo apesar de 75% das vítimas de violência policial no Brasil serem negras. 

“Para reduzir essa tragédia e diminuir o número de vítimas, é preciso mudar o modelo atual da  política de guerra às drogas”, afirma Dudu Ribeiro, coordenador do estudo na Bahia e um dos fundadores da ONG Iniciativa Negra por uma nova política sobre Drogas. Para o historiador, enquanto prevalecer o modelo atual da polícia entrar nas comunidades atirando, o número de vítimas vai permanecer no patamar atual. Para ele, as estratégias para evitar essa tragédia são combater as drogas por meio de prevenção e até do controle do consumo, e não apenas do enfrentamento armado dos traficantes. 

O historiador da UFBA destaca também a dificuldade de os pesquisadores encontrarem registros uniformes nos diferentes bancos de dados públicos pesquisados. “Cada estado registra as ocorrências de uma forma. A Bahia, por exemplo, precisa começar a  uniformizar os registros”, diz ele, ressaltando que registros melhores poderiam ser um primeiro passo para o poder público combater, de fato, a violência e o racismo. 

Como foi o monitoramento? 

Os dados foram reunidos através do acompanhamento diário de jornais, sites, portais noticiosos, perfis de redes sociais e grupos de WhatsApp pelos pesquisadores da Rede, entre junho de 2020 e maio de 2019. O grupo cadastrou cada evento em um formulário on-line que alimentou um banco de dados, logo revisado por um outro pesquisador. Com esse banco de dados completo e revisado, foram realizadas as  análises que constam do relatório. 

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Bernardo de la Peña

Bernardo de la Peña é carioca e jornalista há mais de 25 anos. Trabalhou em "O Estado de S. Paulo" e "O Globo", onde  ganhou dois Prêmio Esso. Escritor, publicou dois livros: "Memorial do escândalo", livro-reportagem sobre o mensalão, e "Um carioca no Planalto", memórias dos cinco anos que viveu em Brasília, a maior parte do tempo cobrindo o Planalto. Adora cavalos, a ponto de se arriscar a praticar salto na Sociedade Hípica Brasileira, um de seus lugares preferidos, ao lado da fazenda da família em Secretário, distrito de Petrópolis (RJ).

Bernardo de la Peña

Bernardo de la Peña é carioca e jornalista há mais de 25 anos. Trabalhou em "O Estado de S. Paulo" e "O Globo", onde  ganhou dois Prêmio Esso. Escritor, publicou dois livros: "Memorial do escândalo", livro-reportagem sobre o mensalão, e "Um carioca no Planalto", memórias dos cinco anos que viveu em Brasília, a maior parte do tempo cobrindo o Planalto. Adora cavalos, a ponto de se arriscar a praticar salto na Sociedade Hípica Brasileira, um de seus lugares preferidos, ao lado da fazenda da família em Secretário, distrito de Petrópolis (RJ).

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