Dia Internacional da Liberdade de Imprensa: quando não nos matam, nos demitem

Por Andréia Coutinho Louback | ODS 16

Publicado em 03/05/2023 - 14h40 (Atualizado há 3 anos)

Tempo de leitura: 6 min

No Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, passei alguns minutos em silêncio lembrando de alguns nomes do jornalismo no nosso país que foram cerceados, mortos ou cooptados. Sendo o Brasil um dos países mais perigosos para jornalistas, o risco iminente de morte é uma realidade no exercício diário da profissão. E, dependendo da ousadia das suas palavras, quando não nos matam, nos demitem.

Ontem à noite, eu tive a felicidade de dar uma aula no Instituto Pólis sobre o papel das mídias e dos comunicadores na missão de visibilizar o racismo ambiental. Um dos pontos que compartilhei foi que, hoje, enquanto jornalista, tenho a liberdade de pautar minhas próprias críticas sociais sem precisar validá-las antes de escrever. Mas já trabalhei em redação e com jornalismo de nicho e conheço de perto a frustração de ter uma pauta vetada.

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Sempre me recordo de uma das trocas mais poderosas que tive com o melhor mestre de jornalismo que eu já tive, o Julio Ludemir. Eu estava desmotivada, sentindo que não estava sendo lida com qualidade e que as minhas provocações narrativas estavam sendo ignoradas por quem eu gostaria que as lesse. Ele, então, me disse: “Escreva sempre pelo prazer de escrever. Pela importância de escrever. O público é uma consequência do que fazemos. E da constância com que fazemos. Construa, solidifique, torne indestrutível sua carreira. Ali na frente, você vai ver o quanto as pessoas invisíveis te leem. Eu escrevia para Zuenir Ventura. Libertei-me quando comecei a escrever para o mundo. Quando escrevi para o mundo, até Zuenir começou a me ler. Mas mesmo que ninguém me leia, eu escrevo. Tenho 9 livros que foram muito menos lidos do que merecem. Mas foram escritos. isso ninguém vai apagar. Nem a polícia. ESCREVA! Mesmo se achando a pior pessoa do mundo. Não importa o que você acha de si. Nem o que você acha que os outros acham. Importa apenas o que você escreve”. Foram essas as palavras que me libertaram.

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No Brasil, especificamente, enfrentamos um cerceamento coletivo nos últimos quatro anos. Durante o governo Bolsonaro, tivemos vários episódios de desrespeito aos jornalistas, agressões, ofensas diretas, machistas e sexistas por parte do coiso. A desqualificação da imprensa era uma realidade diária e constante. Soma-se a isso, assistimos a morte do jornalista britânico Dom Phillips, no Vale do Javari (AM), que teve seu corpo brutalmente esquartejado em território nacional. O que o ex-presidente disse? “Dom Phillips era mal visto pelos garimpeiros ilegais”, como se esse argumento esdrúxulo justificasse seu assassinato ainda em status de suspeita.

Manifestação pela Liberdade de Imprensa: Brasil, um lugar perigoso para jornalistas (Foto: Maitê Berna / Ponte Jornalismo - 14/09/2016)
Manifestação pela Liberdade de Imprensa: Brasil, um lugar perigoso para jornalistas (Foto: Maitê Berna / Ponte Jornalismo – 14/09/2016)

Espero que eu seja mal vista por todos os que relativizam a justiça, negligenciam a verdade e atacam a liberdade de imprensa. Que o medo por ser uma mulher – e mulher negra – jornalista não me reduza a pautas medíocres e medianas para agradar veículos e autoridades corruptas. Espero que, se algum dia eu precisar, eu tenha a proteção necessária para honrar a verdade e o meu compromisso com todas as injustiças legitimadas em um país tão desigual, tão racista e tão polarizado.

Por aqui, seguirei denunciando as injustiças climáticas, o racismo ambiental, o genocídio da população negra, a fome, a miséria, o sexismo, a misoginia, as violências de gênero e toda sorte de desigualdades intergeracionais que enfrentamos por séculos de opressões. Sempre desejei que minhas palavras chegassem a lugares que nunca pisei. E, quando elas não forem suficientes, e se tornarem apenas “mais uma coluna” ou “mais um link”, que me reste a coragem para continuar escrevendo. Viva a liberdade de imprensa!

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Andréia Coutinho Louback

Andréia Coutinho Louback é carioca, mulher negra e jornalista pela PUC-Rio. Mestra em Relações Étnico-raciais pelo CEFET/RJ, ela é reconhecida por duas temáticas de paixão e especialidade: justiça climática e racial. Atualmente, é fellow do programa Humphrey Fellowship, na Universidade da Califórnia, Davis, e faz residência profissional na United Nations Population Fund (UNFPA), nos Estados Unidos.

Andréia Coutinho Louback

Andréia Coutinho Louback é carioca, mulher negra e jornalista pela PUC-Rio. Mestra em Relações Étnico-raciais pelo CEFET/RJ, ela é reconhecida por duas temáticas de paixão e especialidade: justiça climática e racial. Atualmente, é fellow do programa Humphrey Fellowship, na Universidade da Califórnia, Davis, e faz residência profissional na United Nations Population Fund (UNFPA), nos Estados Unidos.

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