Sínodo da Amazônia condena o pecado ecológico

Representantes dos povos indígenas da Amazônia com o Papa Francisco na missa de encerramento do Sínodo. Foto Massimo Valicchia/NurPhoto
Representantes dos povos indígenas da Amazônia com o Papa Francisco na missa de encerramento do Sínodo. Foto Massimo Valicchia/NurPhoto
Representantes dos povos indígenas da Amazônia com o Papa Francisco na missa de encerramento do Sínodo. (Foto Massimo Valicchia/NurPhoto/AFP – 27/10/2019)

Documento final prevê observatório socioambiental para defender povos indígenas e lembra que demarcação de terras é obrigação dos governos

Por Janaína Cesar | ODS 15

Publicado em 28/10/2019 - 16h57 (Atualizado há 7 anos)

Tempo de leitura: 13 min

Representantes dos povos indígenas da Amazônia com o Papa Francisco na missa de encerramento do Sínodo. Foto Massimo Valicchia/NurPhoto
Representantes dos povos indígenas da Amazônia com o Papa Francisco na missa de encerramento do Sínodo. Foto Massimo Valicchia/NurPhoto

Vaticano – Das 120 propostas aprovadas no documento final do Sínodo da Amazônia, a que define o pecado ecológico “como uma ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o meio ambiente”, se destaca pela importância quase revolucionária se pensarmos na profunda crise socioambiental que abala o mundo. Segundo o documento, quem polui a floresta, comete “um pecado contra as gerações futuras”. Esses pecados “se manifestam em atos e hábitos de poluição e destruição da harmonia do meio ambiente, transgressões contra os princípios da interdependência e quebra de redes de solidariedade entre criaturas e contra a virtude da justiça”.

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Nas palavras de Dom David Martínez de Aguirre Guinea, Vigário Apostólico de Puerto Maldonado (Peru), que se pronunciou durante a coletiva de imprensa onde foi apresentado o documento final para os jornalistas, “nenhum católico pode viver a sua fé sem considerar o grito da terra: é preciso ter consciência de que agredir a terra é um pecado ecológico”.

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Nenhum católico pode viver a sua fé sem considerar o grito da terra: é preciso ter consciência de que agredir a terra é um pecado ecológico

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O documento ressalta que a Amazônia é a segunda área mais vulnerável do planeta em relação às mudanças climáticas provocadas pelo homem e que os riscos de desmatamento, que até o momento representam 17% do total da floresta, colocam em perigo o ecossistema e a biodiversidade mudando o ciclo da água. Nessa ótica, o texto propõe a criação de Ministérios especiais para a promoção da ecologia integral nas paróquias em cada jurisdição eclesiástica, a criação de um fundo mundial para cobrir parte dos orçamentos das comunidades presentes na Amazônia que promovem seu desenvolvimento integral e sustentável e a criação de um Observatório socioambiental Pastoral para diagnosticar o território e os conflitos socioambientais em cada igreja local e regional.

Procissão de povos indígenas da Amazônia durante o Sínodo no Vaticano. Foto Vincenzo Pinto/AFP
Procissão de povos indígenas da Amazônia durante o Sínodo no Vaticano. Foto Vincenzo Pinto/AFP

O texto propõe a chamada para a conversão ecológica como resposta à crise socioambiental e vê na ecologia integral “o único caminho possível para salvar a região, pois a depredação da terra vem junto com o derramamento de sangue de inocentes e da criminalização dos Defensores da Amazônia”. “A ecologia integral se fundamenta no fato de que tudo está intimamente relacionado: ecologia e justiça social.”

O documento pontua que a defesa dos direitos humanos não é apenas um dever político, mas sobretudo uma exigência de fé e por essa razão apoiam campanhas de desinvestimento de empresas extrativistas na Amazônia, começando pelas próprias instituições eclesiais e denuncia a violação dos direitos humanos. “Não há mudança real. Com a Amazônia queimando, as pessoas percebem cada vez mais que as coisas devem mudar. Não vamos deixar que as riquezas da Amazônia se transformem numa maldição”, disse o cardeal Michael Czerny, subsecretário da Seção de Migrantes e Refugiados do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.

Os povos da floresta como protagonistas

Segundo o documento, nos povos da Amazônia se encontram ensinamentos de vida. “Os povos originários e aqueles que chegaram tarde forjaram sua identidade na convivência, trazem valores culturais nos quais descobrimos as sementes do Verbo. O pensamento dos povos indígenas oferece uma visão integradora da realidade, capaz de compreender as múltiplas conexões existentes entre tudo o que foi criado. O manejo tradicional do que a natureza lhes oferece tem sido feita de forma sustentável. Encontramos outros valores nos povos indígenas como reciprocidade, solidariedade, sentido de comunidade, igualdade e organização social.

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Boa parte dos territórios indígenas está desprotegido e os já demarcados estão sendo invadidos por frentes extrativistas predatórias, como a mineração e a extração florestal, por projetos de infraestrutura, cultivos ilícitos e pelas grandes propriedades que promovem a monocultura e a pecuária extensiva

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Demarcação Já!

É impossível falar de direito a terra sem falar de direito à vida e vice e versa. Sem citar o nome de nenhum país especificamente, o texto lembra aos governos que é deles a responsabilidade de demarcar e proteger os territórios indígenas e indica que “boa parte dos territórios indígenas está desprotegido e os já demarcados estão sendo invadidos por frentes extrativistas predatórias, como a mineração e a extração florestal, por projetos de infraestrutura, cultivos ilícitos e pelas grandes propriedades que promovem a monocultura e a pecuária extensiva”.

Os bispos sinodais propuseram também “que a igreja se comprometa a ser aliada dos povos da Amazônia para denunciar os ataques contra a vida das comunidades indígenas, dos projetos que afetam o meio ambiente, da falta de demarcação de seus territórios bem como do modelo econômico predatório e ecocida. A presença da igreja entras as comunidades tradicionais exige a consciência de que a defesa da terra não tem outra finalidade senão a defesa da vida”, diz o texto.

Ao se posicionar pela defesa da vida, a igreja propõe instrumentos de atuação para a defesa da terra e das culturas originárias da floresta. O que “implicaria acompanhar os povos amazônicos no registro, na sistematização e difusão de dados e informações sobre seus territórios e a sua situação jurídica. Queremos priorizar a incidência e o acompanhamento para conseguir a demarcação de terras”.

Papel da mulher ficou em segundo plano

Diversamente da primeira versão que havia sido apresentada na segunda, dia 21, o documento final agradou, em muito, os bispos da Amazônia. Segundo Dom Adriano Ciocca, bispo de São Félix do Araguaia, “o novo documento ganhou uma versão mais estruturada e resumida, seguindo a linha do que a assembleia queria”, disse. Para ele, a única parte que não avançou foi a do papel das mulheres dentro da igreja, citando a ordenação feminina. “Creio que ainda não se reconhece o espaço e o papel que as mulheres deveriam ter e considero isso um anacronismo. A igreja católica é a última realidade que não abre espaço para as mulheres. Imagino que se continuarmos nessa evolução, daqui algumas décadas, a igreja terá que lhes pedir perdão por não ter dado o espaço que elas já ocupam e que deve ser reconhecido.”

O documento de 33 páginas trouxe 120 recomendações que abordam as quatro conversões sugeridas: pastoral, ecológica, cultural e sinodal. O texto final é o resultado de anos de um profundo trabalho de escuta realizado ao longo de 270 atividades que envolveram mais de 87 mil pessoas da Amazônia e de outros países do mundo.

Votaram 181 padres, cada ponto aprovado necessitava dos votos de, pelo menos, 120 deles, o que aconteceu. Todos os pontos foram aprovados pela maioria. Agora com o texto em mãos, Papa Francisco deverá avaliar o documento e, até o final do ano, – segundo o pontífice declarou – publicar a chamada “exortação apostólica pós-sinodal” onde serão dadas as orientações para a igreja católica no mundo todo.

No caminho de atuação das propostas indicadas pelo Sínodo, Papa Francisco não estará sozinho. Ele será acompanhado por 13 bispos eleitos membros da comissão pós-sinodal, sendo quatro deles brasileiros: dom Erwin Kräutler, bispo emérito da prelazia do Xingu (PA), dom Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo (SP), dom Alberto Taveira, arcebispo de Belém (PA) e Dom Roque Paloschi, bispo de Porto Velho (RO). Outras três pessoas serão escolhidas por Francisco nos próximos dias, sendo duas mulheres – uma leiga e uma religiosa – e um homem leigo.

A religião do eu 

Na missa de Conclusão da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, que aconteceu na manhã de hoje, 27, na Basílica de São Pedro, o Papa Francisco, disse que os “erros do passado não foram suficientes para deixarmos de saquear os outros e causar ferimentos aos nossos irmãos e à nossa irmã terra: vimo-lo no rosto dilaniado da Amazônia. A religião do eu continua, hipócrita com os seus ritos e as suas orações, esquecida do verdadeiro culto a Deus, que passa sempre pelo amor ao próximo. Até mesmo cristãos que rezam e vão à Missa ao domingo são seguidores desta religião do eu.”

Francisco terminou a missa ao dizer que neste Sínodo, eles tiveram a oportunidade de “escutar as vozes dos pobres e refletir sobre a precariedade das suas vidas, ameaçadas por modelos de progresso predatórios. E, no entanto, precisamente nesta situação, muitos testemunharam que é possível olhar a realidade de modo diferente, acolhendo-a de mãos abertas como uma dádiva, habitando na criação, não como meio a ser explorado, mas como casa a ser guardada, confiando em Deus. Quantas vezes, mesmo na Igreja, as vozes dos pobres não são escutadas, acabando talvez vilipendiadas ou silenciadas porque incomodas. pedindo a graça de saber escutar o clamor dos pobres: é o clamor de esperança da Igreja”.

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Janaína Cesar

Formada pela Universidade São Judas Tadeu (SP), trabalha há 17 anos como jornalista e vive há 15 na Itália, onde fez mestrado em imigração, na Universidade de Veneza. Escreve para Estadão, Opera Mundi, IstoÉ e alguns veículos italianos como GQ, Linkiesta e Il Giornale di Vicenza. Foi gerente de projetos da associação Il Quarto Ponte, uma ONG que trabalha com imigração.

Janaína Cesar

Formada pela Universidade São Judas Tadeu (SP), trabalha há 17 anos como jornalista e vive há 15 na Itália, onde fez mestrado em imigração, na Universidade de Veneza. Escreve para Estadão, Opera Mundi, IstoÉ e alguns veículos italianos como GQ, Linkiesta e Il Giornale di Vicenza. Foi gerente de projetos da associação Il Quarto Ponte, uma ONG que trabalha com imigração.

Comentários

  1. Bispos da Amazônia pedem ao Senado a retirada do PL da Grilagem – https://bemblogado.com.br/site/

    […] carta também lembra a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, realizada em outubro de 2019, que afirmam os bispos, ” nos coloca em marcha como Igreja […]

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