Ilhas de resistências aos agrotóxicos se espalham pelo Brasil

Mulher trabalhando na roça no quilombo Ribeirão da Mutuca. (Foto: Acorquirim/ Divulgação)
Mulher trabalhando na roça no quilombo Ribeirão da Mutuca. (Foto: Acorquirim/ Divulgação)
Mulher trabalhando na roça no quilombo Ribeirão da Mutuca: agroecologia cria ilhas de resistência aos agrotóxicos. (Foto: Acorquirim/ Divulgação)

Mapeamento identifica 542 iniciativas de agroecologia, espalhadas por 27 estados. Estudo mostra que agro não é pop. É tóxico

Por Liana Melo | ODS 12

Publicado em 26/08/2022 - 09h41 (Atualizado há 4 anos)

Tempo de leitura: 6 min

De origem tupi, a palavra “muxirum”, que significa mutirão, faz parte do linguajar dos moradores do Quilombo Ribeirão da Mutuca. Nessa comunidade negra rural de Nossa Senhora do Livramento, localizada a 50 quilômetros de Cuiabá, no Mato Grosso, o uso de agrotóxico é terminantemente proibido. As 140 famílias que vivem na terra, usam e abusam dos recursos naturais locais: pequi, banana, jatobá, babaçu, cumbaru, coco bocaiúva, além de outros frutos típicos do Cerrado.

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Ribeirão da Mutuca é um dos seis quilombos do território Mata Cavalo e um exemplo de resistência aos agrotóxicos pelo Brasil.  Levantamento do De Olho nos Ruralistas para o projeto “Brasil sem Veneno”, feito em parceria com o Joio e o Trigo, identificou 542 iniciativas espalhadas pelo país, em 27 estados brasileiros, onde predominam a agroecologia e a produção de alimentos livres de agrotóxicos e outros contaminantes prejudiciais à saúde do meio ambiente e das pessoas. O levantamento levou seis meses para ser concluído e entre as iniciativas estão indivíduos, grupos e organizações, rurais e urbanas.

Mulher cuidando da criação no quilombo Ribeirão da Mutuca. (Foto: Acorquirim/ Divulgação)
Mulher cuidando da criação no quilombo Ribeirão da Mutuca. (Foto: Acorquirim/ Divulgação)

Uma dessas ilhas de resistência é o quilombo cuiabano Ribeirão da Mutuca, onde vó Lhali, como é carinhosamente conhecida a centenária Lídia Ferreira de Jesus, de 104 anos, é uma espécie de guardiã das práticas tradicionais do “muxirum”. “Vendemos nossa produção de frutas e hortaliças em feiras e também de porta em porta em Cuiabá”, comenta Wilson Ferreira, que faz parte da Associação da Comunidade Negra Rural Quilombo Ribeirão da Mutuca (Acorquirim).

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Das 542 iniciativas incluídas no mapeamento da agroecologia, 298 delas ocorrem em municípios rurais, palco, em sua maioria, de conflitos pela terra e de enfrentamento direto com o agronegócio. Ribeirão da Mutuca é um caso típico. Apesar de o território Mata Cavalo ter sido reconhecido pela Fundação Cultural Palmares como terra tradicional dos quilombolas em 2003, a área nunca deixou de ser invadida por fazendeiros, especialmente pecuaristas, e posseiros.

No quilombo Ribeirão da Mutuca o trabalho é feito em mutirão. (Foto: Acorquirim/ Divulgação)
No quilombo Ribeirão da Mutuca o trabalho é feito em mutirão. (Foto: Acorquirim/ Divulgação)

“Precisamos dar visibilidade a essas iniciativas”, defende Fran Paula, engenheira agrônoma e representante da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) – a entidade visa mostrar como os agrotóxicos são tóxicos e não pop, e que, ao contrário do que se divulga, não são fundamentais para aumentar a produtividade.

Como um dos maiores consumidores de agrotóxico do mundo, o Brasil, especialmente no governo Bolsonaro, vem liberando, em média, 1,4 agrotóxicos por dia, muitos deles altamente perigosos à saúde e ao meio ambiente, e, por isso, proibidos no exterior.

“Tem sido difícil mensurar os danos na saúde humana, especialmente porque o sistema de saúde ainda não está preparado”, comentou Fernando Carneiro, pesquisador da Fiocruz Ceará e membro do GT de Saúde e Ambiente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva – GTSA/Abrasco. Ele cita, por exemplo, que, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), existe uma subnotificação das intoxicações por agrotóxicos: de cada caso notificado, existem outros 50 que não são notificados.

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Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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