Mulheres tecem cultura e bem-viver em quilombos do agreste pernambucano

Foto colorida com grupo de mulheres da Associação de Mulheres Guerreiras Quilombolas do Castainho. Elas são quilombolas, negras, usam uma camiseta branca da associação e estão atrás de uma mesa com várias comidas feitas a partir de mandioca
Foto colorida com grupo de mulheres da Associação de Mulheres Guerreiras Quilombolas do Castainho. Elas são quilombolas, negras, usam uma camiseta branca da associação e estão atrás de uma mesa com várias comidas feitas a partir de mandioca
Integrantes da Associação de Mulheres Guerreiras Quilombolas do Castainho; entidade atua na promoção da autonomia e empoderamento no território (Foto: Berna / Caatinga Climate Week)

Em meio à falta de titulação e às adversidades climáticas, mulheres fazem da ancestralidade um caminho para a resiliência

Por Micael Olegário | ODS 11

Publicado em 06/07/2026 - 09h14 (Atualizado há 4 dias)

Tempo de leitura: 10 min

(Garanhuns – PE*) – Na zona rural de Garanhuns, agreste pernambucano, mestra Zeza do Coco recebe um grupo de visitantes para conhecer o Quilombo Castainho. Com uma voz tranquila e um sorriso no rosto, ela apresenta o espaço cultural que ajuda a contar a história da comunidade, iniciada em meados do século XVII.

Foi com a intenção de resguardar as tradições e a ancestralidade quilombola que Maria José Lopes Isídio, nome de Zeza, decidiu começar a cantar. Em letras do samba de coco, ela descreve como a cultura e a natureza se entrelaçam no cotidiano da comunidade, por exemplo, no cultivo e beneficiamento da mandioca.

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São mulheres como Zeza que encabeçam a luta das populações quilombolas da Caatinga. Também na zona rural de Garanhuns, Edivane Lopes e Aparecida Nascimento Oliveira se dedicam para tecer um futuro com mais justiça social e ambiental para o Quilombo Estivas.

Por que suíça pernambucana? Porque querem embranquecer a cidade. Garanhuns é terra de quilombo, é terra de resistência

Edivane Lopes
Coordenadora da Associação de Mulheres Guerreiras Quilombolas do Castainho

Nos dois territórios, a Associação de Mulheres Guerreiras Quilombolas do Castainho e o Coletivo de Mulheres Negras Flores de Dandara são exemplos de organizações guardiãs da cultura e do meio ambiente. Ao mesmo tempo, as duas entidades contribuem com autonomia financeira e o empoderamento das mulheres quilombolas.

A visita aos Quilombos Castainho e Estivas fez parte das experiências de imersão da Caatinga Climate Week. Realizado entre os dias 1° e 3 de julho, o evento tem a proposta de mostrar as soluções climáticas e a potência sociocultural de comunidades e povos tradicionais do bioma.

Foto colorida que mostra a mestra Zeza do Coco, no canto esquerdo. Ela é uma mulher negra, com cabelo afro e usa óculos e uma camiseta branca, enquanto gesticula com a mão direita
Mestra Zeza do Coco (esquerda) apresenta a casa de farinha para grupo de participantes da da Caatinga Climate Week (Foto: Berna / Caatinga Climate Week)

Quilombo Castainho

Logo na entrada ao Espaço Cultura Mestra Zeza do Coco, a imagem de Maximina Lopes está pintada na parede. A avó de Zeza foi uma das mulheres pioneiras para a formação da comunidade e uma das inspirações da mestra e educadora popular do Quilombo Castainho.

“Sempre gostei de  observar a minha avó e de ouvir os mais velhos. Minha avó ficava contando as histórias e cantando um coquinho dela e eu observando”, descreve mestra Zeza. Apesar do talento inato, Maximina não gostava de cantar em público, uma dificuldade que a neta também teve de enfrentar no início.

Incentivada por outras pessoas da comunidade, Zeza decidiu começar a se apresentar junto com outros membros da família e, aos poucos, o espaço cultural ganhou forma. Hoje, o local serve também para aulas de percussão e capoeira aos jovens da comunidade.

“A mandioca está na história da nossa comunidade”, conta Zeza. Em parceria com o Sebrae, a Associação de Mulheres Guerreiras Quilombolas do Castainho trabalha para resgatar a culinária tradicional com produtos feitos a partir da mandioca, principal cultivo da comunidade.

Foto colorida da fachada da Associação do Quilombo Castainho. Na imagem, aparece o prédio na cor verde, com a placa com o nome da associação
Quilombo Castainho é um dos dois únicos territórios parcialmente titulados em Pernambuco (Foto: Berna / Caatinga Climate Week)

Titulação e ameaças

Ao todo, cerca de 350 famílias vivem no território, que fica há 5 km de Garanhuns e 230 km da capital Recife. Ao lado do Quilombo Conceição das Crioulas, em Salgueiro, o Castainho é um dos únicos parcialmente titulados em Pernambuco. Além disso, a busca por políticas públicas é um desafio cotidiano.

A cidade de Garanhuns é chamada por algumas pessoas de “suíça pernambucana”, em virtude do clima mais ameno em relação a outros locais do estado. Coordenadora da associação das mulheres do Castainho, Edivane Lopes critica essa imagem idealizada e o racismo institucional que ela carrega.

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“Por que suíça pernambucana? Porque querem embranquecer a cidade. Garanhuns é terra de quilombo, é terra de resistência”, enfatiza Edivane. Ela comenta ainda sobre os desafios relacionados às mudanças climáticas que afetam justamente a produção da mandioca.

Edivane comenta ainda sobre as ameaças e pressões que a comunidade sofre, o que resulta em diferentes tipos de insegurança. “Sem território nós não conseguimos de fato gozar das políticas públicas e de todas as nossas vivências”, acrescenta a bacharel em Direito e integrante da Comissão Estadual de Articulação das Comunidades Quilombolas de Pernambuco.

Foto colorida de Aparecida Nascimento Oliveira. Ela é uma mulher negra, quilombola, e está de pé, usando uma camiseta branca. Ela tem cabelo curto, preto.
Aparecida Nascimento Oliveira; mulheres são protagonistas da luta por direitos nos quilombos de Garanhuns (Foto: Berna / Caatinga Climate Week)

Quilombo Estivas

Também na zona rural de Garanhuns, a Terra Quilombola Estivas conta com cerca de 220 famílias que vivenciam um contexto de desafios semelhantes, principalmente, pela falta de titulação e pelas ameaças às lideranças. Atualmente, o território está em processo de delimitação da área e aguarda a publicação do RTDI (Relatório Técnico de Identificação e Delimitação).

Agente comunitário de saúde e coordenador nacional da Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas), Marinho da Estiva denuncia o racismo estrutural e a intimidação, inclusive, com tentativa de invasão de casas de líderes da comunidade.

Como exemplo da exclusão de direitos básicos, Marinho cita a priorização das obras de acesso a uma vinícola recém instalada no município, em detrimento da demanda histórica da comunidade por estradas melhores.

Foto colorida de crianças quilombolas fazendo apresentação de dança tradicional no Espaço Agroecológico Dona Mira, Quilombo Estivas
Crianças quilombolas que fazem parte do projeto de ponto de cultura do Quilombo Estivas (Foto: Berna / Caatinga Climate Week)

Clima e gênero

No Quilombo Estivas, as mulheres assumem novamente o protagonismo no cuidado da terra e das pessoas. “A gente não sabe mais quando chove, está bem gritante a questão do clima. Garanhuns nunca foi tão quente, como nos últimos anos. A gente sempre foi acostumada com o friozinho e agora temos que viver no calor”, descreve Aparecida Nascimento Oliveira.

No território, Aparecida é responsável por coordenar as cerca de 70 integrantes do Coletivo de Mulheres Negras Flores de Dandara. A iniciativa promove oficinas de artesanato, gastronomia, costura, dança, música e percussão. O trabalho é realizado no Espaço Agroecológico Dona Mira, local que homenageia outra liderança feminina importante para a história da comunidade. 

“O nosso público assíduo é muito feminino mesmo. Isso é bom, porque é mais empoderamento dentro dos territórios, são mais mulheres lutando por políticas públicas e abrindo os horizontes para que outras mulheres se juntem a essa grande roda”, destaca Aparecida. O protagonismo feninomo nesse movimento ajuda a conectar o debate climático com as discussões sobre equidade de gênero.

Além do espaço cultural, o projeto de defesa do bem-viver na comunidade inclui um projeto piloto de biodigestor, instalado na residência de Rosa da Silva Santos e Vicente Pereira dos Santos. A ideia é mostrar a viabilidade e arrecadar recursos para atender mais famílias.

Um momentos marcantes da visita ao Quilombo Estivas, durante a Caatinga Climate Week, foi o plantio coletivo de uma muda de baobá. Árvore sagrada para as culturas de matriz africana, o baobá é conhecido por possuir um tronco largo, capaz de armazenar cerca de 120 mil litros de água.

*O repórter Micael Olegário participou da Caatinga Climate Week a convite do Instituto Socioambiental (ISA)

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestre e doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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