Gol do patriarcado: quem tem medo do feminino?

Atribuído ao universo masculino, futebol é usado como justificativa para diversos comportamentos masculinos enquanto tudo que é associado ao feminino é ridicularizado

Por Júlia Pessôa | ODS 5

Publicado em 16/06/2026 - 09h29 (Atualizado há 4 semanas)

Tempo de leitura: 6 min

Começou a Copa do Mundo masculina de futebol e embora a gente até tenha evoluído alguma coisa na relação entre futebol e machismo, tem muita água ainda pra passar por baixo dessa ponte. Sou bastante suspeita pra falar porque sou uma mulher adulta que detesta futebol e tudo do universo boleiro, muito devido à convivência por muito tempo com machos futeboleiros caricatos e por perceber a cultura misógina que historicamente cerca o esporte. 

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Para começar, a máxima, esfregada na nossa cara, de que a gente não devia estar ali. Começa com o Romário dizendo pra Fernanda Gentil, comentarista esportiva, que ela não entende do esporte, reflexo que a gente também vê nas piadinhas “então me explica o que é impedimento”. Piora demais quando a gente vê a recorrência  de jogadores milionários que estupram mulheres, a visão generalizada de mulher como um objeto de ostentação, a desculpa de que é um espaço de socialização necessário e vital para o homem sem nenhuma equivalência possível para mulheres, enfim… essas e outras regras veladas que entram em campo quando a bola rola e vão socando pela nossa goela abaixo que “aqui não é lugar de mulher”.

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Fernanda Gentil e Romário: mais um episódio de machismo no futebol (Foto: Reprodução CazéTV)
Fernanda Gentil e Romário: mais um episódio de machismo no futebol (Foto: Reprodução CazéTV)

Acho incrível que muitas mulheres estejam ocupando espaços relacionados ao futebol e invertendo essa lógica misógina tão absurda quanto histórica? Com certeza! Vou fazer parte deste movimento? Não. Na peleja por ter um lugar ao sol no futebol, eu cruzo de letra para a mulherada que gosta dele. Tô de boa.

Não tem nada no futebol – ou em qualquer esporte – que o faça essencialmente masculino ou feminino. Nem na moda, nem em qualquer profissão, qualquer cor, qualquer coisa. São ideias que foram construídas, e se consolidaram geração e geração, até serem naturalizadas e a gente aceitar, como sociedade, que “sempre foi assim”. Isso obviamente atende a algum interesse e não precisa ir muito longe pra saber qual.

Quando dizemos que futebol “é coisa de homem”, estamos normalizando também o fato de que em dias de jogo, as agressões contra mulheres aumentam em 25% (dados do Ministério dos Esportes e do Ministério das Mulheres). Uma piada sobre mulher não saber o que é escanteio vem da mesma lógica que questiona o profissionalismo e a capacidade de uma árbitra, uma comentarista ou uma jogadora. A mesma cultura que acha natural um homem adulto se esgoelar, se tatuar, chorar e entrar em brigas por causa de um time ridiculariza e infantiliza mulheres fãs de Taylor Swift e K-pop, julga moda (vista como coisa ‘de mulherzinha’ e ‘de viado’) como frivolidade e desmerece qualquer reunião de mais de duas de nós como “fofoca”.

Não sou eu que estou dizendo, é a história da humanidade.

E, debruçando-se sobre ela, autoras como Silvia Federici, Sara Ahmed e bell hooks já explicaram muito bem: o que é associado ao masculino tende a ser tratado como universal, importante e digno de respeito, enquanto tudo o que é ligado ao feminino precisa o tempo todo justificar sua existência. O problema não é o futebol, o hobby ou o conteúdo da paixão. É quem está autorizado a senti-la.

Talvez seja por isso que incomoda tanto quando mulheres ocupam espaços tradicionalmente considerados masculinos. Porque a simples presença delas desmonta a fantasia de que alguns territórios pertencem naturalmente – e exclusivamente – aos homens. Da mesma forma, incomoda quando mulheres criam seus próprios espaços de interesse, lazer e sociabilidade. Porque, durante muito tempo, sustentou-se como verdade a ideia de que a vida feminina deva ser organizada em torno do cuidado dos outros, não do prazer de si mesma.

No fundo, o patriarcado não tem medo de mulheres jogando, apitando ou assistindo futebol. Tem medo de mulheres fazendo qualquer coisa que não seja para alimentar suas engrenagens e, o pior: sem pedir licença.

Na verdade, o grande gol do patriarcado tá muito longe dos campos de futebol: foi convencer o mundo de que aquilo que os homens gostam é mais importante, tem mais valor ou é regra.

E esse com certeza é um jogo que vale a pena interromper.

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Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

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