Justiça, palavra feminina (mas, infelizmente, violência também)

Voto de Cármen Lúcia determinar condenação de Bolsonaro mostra a importância de mulheres em espaços de decisão, mas feminicídio de Alícia Valentina, 11 anos, revela o quanto ainda é preciso lutar para que meninas tenham direito a sobreviver

Por Júlia Pessôa | ODS 16ODS 5

Publicado em 16/09/2025 - 08h27 (Atualizado há 10 meses)

Tempo de leitura: 6 min

Não sei onde você, que me lê, estava na semana passada, no dia 11 de setembro, quando a ministra Cármen Lúcia cravou o voto que definiu a condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos 3 meses de prisão. Eu estava no trabalho, e quando o relógio gravou 18h, eu fui comemorar com toda a euforia de quem chorou em 2018, quando os telejornais confirmaram nosso (meu e de quem me cerca) maior medo: Bolsonaro estava eleito e seria o presidente do país por quatro anos. Não vou repetir aqui as atrocidades de nosso recém-condenado, porque ainda estamos vivendo o estado pré-carnavalesco que antecede sua prisão. Pelo menos todo mundo que tem a cabeça no lugar. (Se não é seu caso, talvez seja melhor parar de ler por aqui).

O fato de o destino de Bolsonaro ser decidido nas mãos de uma mulher mostra, para além de uma vingança para se degustar lentamente, a importância de que mulheres ocupem espaços de decisão. Não apenas Cármen Lúcia lavou nossas almas contra anos de “fraquejei e veio uma mulher”, “você não merece ser estuprada” e outras violências, mas fez questão de afirmar a importância disso: ‘Nós mulheres ficamos dois mil anos caladas, nós queremos ter o direito de falar’. E falamos, nós todas, pela voz da magistrada.

Cármen Lúcia no julgamento da ação penal por golpe de estado contra Bolsonaro e aliados: voto da ministra mostra importância de mulheres nas instâncias de poder (Foto: Victor Piemonte / STF - 11/09/2025)
Cármen Lúcia no julgamento da ação penal por golpe de estado contra Bolsonaro e aliados: voto da ministra mostra importância de mulheres nas instâncias de poder (Foto: Victor Piemonte / STF – 11/09/2025)

Longe de mim achar que, de fato, falamos todas com o voto de Cármen Lúcia. Para bem e para mal, sei que não dá pra pensar nessa ideia de “mulher única”, e que as maiores bobagens são ditas em frases iniciadas por “toda mulher”. Ao mesmo tempo em que eu e tantas outras, perto e longe de mim, estávamos prontas para um festejo sem fim ao sabermos da condenação de Jair, enquanto escrevo essas palavras, há dezenas de mulheres na porta do hospital onde o condenado está internado, orando por sua saúde e seu futuro. Não existe “toda mulher”. Nem quando é para pensar no melhor para nós.

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E ainda mais distante de mim pensar que a batalha contra a misoginia e tantas outras violações está vencida, por mais que seja delicioso imaginar Bolsonaro vendo o sol nascer quadrado (e o quanto o homem deve estar desesperado no tempo que antecede o xilindró). Mas se Justiça é uma palavra feminina, infelizmente, violência também é. Na mesma semana em que vivemos a apoteose de saber que Jair já vai para o xadrez, o Brasil soube do feminicídio de Alícia Valentina, de somente 11 anos, depois de ter sido espancada por um grupo de colegas. O motivo? Não querer “ficar” com um deles.

Não é que a gente não deva comemorar as pequenas alegrias, como venho repetindo insistentemente aqui. Mas não haverá, de fato, Justiça, enquanto meninas e mulheres forem assassinadas por se recusarem a fazer as vontades de machos. Enquanto um “não” nos puser em risco de um estupro, de morte e de incontáveis outras violências. Em qualquer idade, mas sobretudo ainda tão jovens como Alícia. A Justiça precisa estar pulverizada em cada esquina, em cada escola, em cada casa onde o machismo autoriza a violência. Tem de ser prática diária, insurgência cotidiana, política pública, educação transformadora.

Para cada palavra da ministra Cármen Lúcia que lavou nossa alma, temos incontáveis Alícias Valentinas, de todas as idades, e em todos os contextos possíveis, sendo violadas e mortas. E para cada moleque que se acha no direito de espancar, violentar e assassinar uma garota ou uma mulher que lhe nega algo, temos uma legião de adultos patéticos, que sacodem a bandeira dos Estados Unidos para demonstrar patriotismo, fazem arminha com os dedos e são validados por um homem que esteve no cargo mais alto do país, debochando de quem morria de Covid e se autodeclarando imbrochável. (Disclaimer: Jair também dizia que jamais seria preso. Então pode-se imaginar a real situação da, como versava a marchinha, “Pipa do vovô”).

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Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

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