Pochetes, mulheres e cidades

Sacolas, embrulhos e trajetos multidirecionais ilustram sobrecarga feminina diariamente no espaço urbano

Por Júlia Pessôa | ODS 5

Publicado em 15/10/2024 - 09h11 (Atualizado há 2 anos)

Tempo de leitura: 6 min

As mãos das mulheres nunca estão vazias – e se estão, certamente a carga foi para uma mochila ou acessório que o valha… No transporte público, nas ruas, no trabalho, elas equilibram sacolas, bolsas, embrulhos. A qualquer hora do dia, não é raro ver uma de nós “aproveitando” que está fazendo X para também fazer Y, sempre carregando o peso de alguma tarefa extra que parece nunca acabar. É um reflexo claro da sobrecarga de responsabilidades, sobretudo aquelas invisíveis, que recaem sobre a gente.

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Em qualquer cidade, enquanto o trajeto dos homens, em sua maioria, segue um ritmo simples e direto, pendular, da casa para o trabalho e do trabalho para casa, o caminho das mulheres é uma rota com várias paradas, em zigue-zague. Há crianças para deixar na escola e mil atividades, compras para fazer, medicamentos para buscar na farmácia, parentes a quem prestar cuidados, uma “coisinha pra resolver”. Nosso trajeto se multiplica em desvios, demandas extras, e tantas sacolas que parecem desenhar um polígono no mapa da cidade, tatuando diariamente a desigualdade de gênero no mapa urbano.

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Sempre me lembro de quando era criança nos anos 1990, e achava o máximo que minha mãe usasse pochete, quando nem era cool como atualmente – de novo, e até quando? Hoje entendo que antes de qualquer escolha fashion ousada, ela precisava, na verdade, de mãos livres para tocar o dia e a vida com dois filhos pequenos e um zilhão de tarefas. Uma mão em mim, outra no meu irmão, e a pochete firme na cintura, como uma ferramenta de guerra, um jeito de carregar o necessário sem perder de vista as crias.

Mulheres e suas sacolas nas ruas de São Paulo: sobrecarga feminina diariamente no espaço urbano (Foto; Agência Brasil)
Mulheres e suas sacolas nas ruas de São Paulo: sobrecarga feminina diariamente no espaço urbano (Foto: Agência Brasil)

Hoje vejo que essa figura da mãe onipotente, circulando na cidade com aparentemente tudo sob controle, esconde a sobrecarga não só da minha mãe, mas de tantas (todas?) outras mulheres. Enquanto o patriarcado faz a gente romantizar essa imagem de “supermulher” carregada de sacolas, bolsas ou no improviso de uma pochete, a realidade é que mulheres não podem se dar ao luxo de não serem super, porque ninguém mais está disposto a carregar o que elas carregam, nas mãos e na vida.

E os homens, quantos braços ocupados têm? Quantas sacolas seus trajetos carregam? Também da infância, lembro-me do meu pai carregando um outro acessório, tão em desuso quanto a pochete já esteve: uma edição do JB. As mãos dos homens carregam o que eles querem levar, e não o que precisam. É óbvio que existem homens equilibrando sacolas, bolsinhas de bebê, mochila de filho e o diabo a quatro por aí, sobretudo os mais pobres e os negros – que, não por acaso, costumam coincidir.  Mas, estruturalmente, são as mulheres que giram em torno de múltiplos eixos, divididas entre o trabalho e as inúmeras tarefas invisíveis do cuidado.

É preciso perceber o peso que vemos nas cinturas e braços pela cidade para que haja justiça social e igualdade entre os gêneros. Ninguém precisa de mais supermulheres exaustas. Com ou sem sacolas (ou pochetes).

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Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa é jornalista, mestra em comunicação, especialista em gêneros e sexualidades e doutora em ciências sociais. Atuou no jornalismo diário por mais de dez anos, cobrindo principalmente cultura, gastronomia, gêneros, sexualidades e direitos humanos. Tem experiência de docência no ensino superior público e privado, no qual atua até hoje. É autora do livro de crônicas “Heteronímia” (2017), publicado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura (Juiz de Fora- MG) e tem publicações em veículos como UOL Tab, BBC Brasil e O Globo. Inexoravelmente feminista.

Comentários

  1. Marlene Oliveira

    Muito real. Carregamos pesos e não é só nas mãos.

  2. Lindalva Ferreira

    Eu gosto muito da forma como Júlia escreve suas colunas.
    Vai no cerne do problema, é clara e não grosseira.
    Parabéns.

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