O outro lado do balcão

Pintura de um senhor feudal humilhando um dos seus servos. Collection privee/Isadora/Leemage
Pintura de um senhor feudal humilhando um dos seus servos. Collection privee/Isadora/Leemage
Pintura de um senhor feudal humilhando um dos seus servos. Collection privee/Isadora/Leemage

O pior do feudalismo e do anarquismo num só lugar

Por Leo Aversa | ODS 4

Publicado em 06/10/2017 - 09h17 (Atualizado há 9 anos)

Tempo de leitura: 7 min

Pintura de um senhor feudal humilhando um dos seus servos. Collection privee/Isadora/Leemage
Pintura de um senhor feudal humilhando um dos seus servos. Collection privee/Isadora/Leemage

Escrevi um texto para o #Colabora outro dia sobre a falta de educação dos garçons, atendentes e vendedores cariocas. Algumas pessoas reclamaram, com razão, de que não é só com eles. Quem está do outro lado do balcão não fica atrás.

Ao mesmo tempo que quem atende é displicente, mal-educado e apático, quem pede é arrogante, prepotente e grosseiro. O cliente entra no mercado e não dá um oi. “Me dá duzentas de queijo prato” ordena sem sequer olhar para a cara do funcionário. Afinal, no balneário decadente, por favor é considerado o bordão dos fracos. Depois passeia pelas gôndolas como se os outros fossem de vidro, invisíveis, e quando chega no caixa joga todas as compras do lado da registradora e só desvia do celular para responder ao “crédito ou débito?, mesmo assim de má vontade, indignado pela insolência da criadagem em lhe dirigir a palavra.

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Não é uma questão de ódio ou agressividade, como acontece em muitas outras cidades do mundo. O que há por aqui é uma mistura de preguiça com saudosismo dos tempos do Brasil Colônia. É um sentimento difuso de que quem presta serviço só pode ser servo ou escravo, o que torna o cliente um senhor de engenho em potencial.

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Aqui no Rio é lá e cá.

Não é uma questão de ódio ou agressividade, como acontece em muitas outras cidades pelo mundo, onde as pessoas querem mais é que você se exploda. Experimente comprar uma baguette em Paris sem falar francês ou comprar qualquer coisa, em qualquer idioma, em Moscou, e você vai entender a diferença. O que há por aqui é uma mistura de preguiça com saudosismo dos tempos do Brasil Colônia. É um sentimento difuso de que quem presta serviço só pode ser servo ou escravo, o que torna o cliente um senhor de engenho em potencial. Se há muita indolência e desinteresse de um lado, sobra estupidez e grosseria do outro, onde se repetem cenas dignas de Escrava Isaura ou Ben Hur. E quanto mais “sofisticado” o ambiente mais besta o consumidor carioca fica. Se o restaurante não é a quilo, o sujeito já quer ser servido como se fosse Luís XV em Versailles, sem ao menos olhar para a cara do garçom. Se entra numa loja que não seja de departamentos já quer ser anunciado por clarins e tratado com honras de chefe de estado, mesmo sem dar um mísero bom dia a nenhum vendedor.

O mais estranho é que na praia, na rua, em casa, o carioca é um sujeito mais afável, simpático e gentil do mundo. Entrou dinheiro na relação, virou comércio, ferrou: se transforma ou num bicho preguiça anestesiado ou num pitbull raivoso. Não tem meio termo. Ele encara a boa educação e as boas maneiras como algo que não lhe diz respeito: ou o carioca está abaixo delas, como se o bom dia fosse uma utopia inalcançável e educação “coisa de rico” ou ele se considera acima, como se o por favor fosse uma concessão desnecessária às boas maneiras, “coisa de pobre”.

O Rio de Janeiro criou a tempestade perfeita do capitalismo: juntou o pior do feudalismo com o pior do anarquismo

É o “tô pagando, porra” contra o “que se dane, tô nem aí”.

Uma luta que só a Socila salva

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Leo Aversa

Leo Aversa fotografa profissionalmente desde 1988, tendo ganho alguns prêmios e perdido vários outros. É formado em jornalismo pela ECO/UFRJ mas não faz ideia de onde guardou o diploma. Sua especialidade em fotografia é o retrato, onde pode exercer seu particular talento como domador de leões e encantador de serpentes, mas também gosta de fotografar viagens, especialmente lugares exóticos e perigosos como Somália, Coreia do Norte e Beto Carrero World. É tricolor, hipocondríaco e pai do Martín.

Leo Aversa

Leo Aversa fotografa profissionalmente desde 1988, tendo ganho alguns prêmios e perdido vários outros. É formado em jornalismo pela ECO/UFRJ mas não faz ideia de onde guardou o diploma. Sua especialidade em fotografia é o retrato, onde pode exercer seu particular talento como domador de leões e encantador de serpentes, mas também gosta de fotografar viagens, especialmente lugares exóticos e perigosos como Somália, Coreia do Norte e Beto Carrero World. É tricolor, hipocondríaco e pai do Martín.

Comentários

  1. Vera de Souza

    Leo Aversa, concordo totalmente com esta coluna como com anterior. Só um pequeno detalhe,como consumidora estou naquela situação em que, na maior parte das vezes cumprimento a caixa do supermercado, o taxista, o funcionário do setor de frios etc e, na maior parte das vezes, fico no vácuo. Onde devo me enquadrar? Consumidora invisível?

  2. Daniel

    Gostaria de entender a conexão com anarquia, pra mim não faz o menor sentido ou está trabalhando no senso comum criminalizador sobre ela.

  3. Kariane Pontes

    Li tudo procurando onde está o anarquismo. Ih não tem! Só usou pra chamar a atenção.

  4. Lucio

    O que o anarquismo tem a ver com as calças? Uso típico e estigmatizante do conceito. Suponho que o autor tenha querido dizer "anarquia", mas daria no mesmo. Os dois termos estão longe de significar caos, desordem ou algo do gênero.

    Fascismo já é mais razoável, aqui. Basta ver no que o país (e o Rio) está se tornando. O comportamento em geral dos cariocas (Zona Sul, por favor) pode ser considerado mais conforme à intolerância do Mussolini e a sua turma. Até politicamente mesmo falando.

    1. Lucio

      Li fascismo onde está feudalismo. OK, no fim, o sentido é o mesmo. A Idade Média está próxima por aqui.

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