ODS 1
Traumas psicossociais após desastres climáticos




Desabrigados das enchentes no Rio Grande em ginásio em Canoas: preocupação com saúde mental climática alimenta campanha por criação de política pública para atingidos (Foto: Canoas. Foto: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil – 21/05/2024)
Preocupação com saúde mental climática alimenta campanha por projeto de lei ainda a espera ser votado na Câmara; chegada do El Niño acende o alerta sobre eventos extremos, que podem provocar novos impactos em áreas atingidas.
Pouco mais da metade dos domicílios afetados pelas enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 teve sua saúde mental abalada. De sete a cada dez casas atingidas (67,5%) tiveram pelo menos uma pessoa com algum tipo de comprometimento mental, constatou a “Pesquisa Especial sobre as Enchentes no Rio Grande do Sul”, um estudo inédito do IBGE divulgado no primeiro dia de julho.
Depois que a água baixa, a fumaça passa, a seca dá trégua ou a estrada é reaberta, muitas famílias seguem lidando com luto, ansiedade, medo de novas perdas, depressão, estresse pós-traumático e perda de pertencimento
Ainda segundo a pesquisa, as principais ocorrências, além dos transtornos mentais, foram a interrupção na vida social ou no convívio com a família ou amigos (58,4%) e a dificuldade no deslocamento para trabalho, escola ou creche (57,3%). Perto de 350 mil pessoas foram obrigadas a mudar por causa do desastre climático.
Os dados estatísticos reforçam a visão da advogada e ativista climática Luciana Brafman, consultora das Nações Unidas (ONU) para políticas públicas sobre clima, sustentabilidade e bem-estar das comunidades. À frente da ONG Time to Act, ela lidera a campanha Saúde Mental Climática, que defende a criação de uma Política Nacional de Saúde Mental Climática, como proposta pelo PL 6151/25.
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“Preparar as pessoas para que fiquem resilientes é a meta. Senão, essas cidades serão reconstruídas em cima de traumas“, afirma Luciana Brafman, também produtora e diretora de documentários, que critica a descontinuidade do socorro às vítimas, frequentemente prestado pontualmente e cessado assim que “o holofote vai embora.”
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Veja o que já enviamosO projeto de lei teve pedido de tramitação em regime de urgência feito ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, mas até agora a solicitação não foi atendia. De autoria dos deputados Pompeo de Mattos (PDT/RS) e Fernanda Melchionna (PSOL/RS), o projeto de lei defende a criação de uma política pública permanente para prevenir, tratar e acompanhar os impactos psicossociais da crise climática no Brasil.
“A cada enchente, seca, queimada, deslizamento ou deslocamento forçado, a atenção pública se volta para o número de mortos, desabrigados, desalojados, prejuízos materiais e danos à infraestrutura. Mas, quando a emergência deixa de ocupar o noticiário, permanece uma dimensão menos visível e ainda pouco nomeada no debate público: o impacto emocional, psicossocial e comunitário da crise climática”, comenta Brafman.
Causa e efeito
Foi durante a COP30, realizada em Belém, em novembro de 2025, que surgiu a ideia da campanha Saúde Mental Climática e do projeto de lei. A diretora e produtora estava em Belém apresentando o curta metragem “Memória Radical”, sobre as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. O documentário, dirigido pela própria Luciana Brafman e por Ricardo Carioba e produzido pela Time to Act, começou a ser filmado ainda durante as enchentes. Durante 16 dias, a equipe percorreu cidades submersas, de barco, de carro, a pé, e muitas vezes dentro d’água.
Não é de hoje que a relação entre crise climática e saúde mental vem aparecendo em estudos internacionais e em práticas recentes de resposta a emergências. A exposição a eventos extremos, como enchentes, secas, queimadas e deslizamentos, está associada a sofrimento psíquico, ansiedade, depressão, estresse pós-traumático, luto, deslocamento forçado e ruptura de vínculos comunitários. É o trauma coletivo climático.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) já constatou que um em cada cinco pessoas expostas a desastres naturais pode desenvolver transtornos mentais relevantes. Eventos extremos – que podem voltar a ocorrer agora com a chegada de um El Niño muito forte – não destroem apenas casas, ruas, plantações e equipamentos públicos. Eles desorganizam territórios, rompem vínculos comunitários, interrompem trajetórias de vida e produzem sofrimento psíquico coletivo. “Depois que a água baixa, a fumaça passa, a seca dá trégua ou a estrada é reaberta, muitas famílias seguem lidando com luto, ansiedade, medo de novas perdas, depressão, estresse pós-traumático e perda de pertencimento”, comenta Luciana Brafman.
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