Traumas psicossociais após desastres climáticos

Desabrigados das enchentes no Rio Grande em ginásio em Canoas: preocupação com saúde mental climática alimenta campanha por criação de política pública para atingidos (Foto: Canoas. Foto: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil - 21/05/2024)
Desabrigados das enchentes no Rio Grande em ginásio em Canoas: preocupação com saúde mental climática alimenta campanha por criação de política pública para atingidos (Foto: Canoas. Foto: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil - 21/05/2024)
Desabrigados das enchentes no Rio Grande em ginásio em Canoas: preocupação com saúde mental climática alimenta campanha por criação de política pública para atingidos (Foto: Canoas. Foto: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil – 21/05/2024)

Preocupação com saúde mental climática alimenta campanha por projeto de lei ainda a espera ser votado na Câmara; chegada do El Niño acende o alerta sobre eventos extremos, que podem provocar novos impactos em áreas atingidas.

Por Liana Melo | ODS 13ODS 3

Publicado em 06/07/2026 - 09h40 (Atualizado há 2 dias)

Tempo de leitura: 7 min

Pouco mais da metade dos domicílios afetados pelas enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 teve sua saúde mental abalada. De sete a cada dez casas atingidas (67,5%) tiveram pelo menos uma pessoa com algum tipo de comprometimento mental, constatou a “Pesquisa Especial sobre as Enchentes no Rio Grande do Sul”, um estudo inédito do IBGE divulgado no primeiro dia de julho.

Depois que a água baixa, a fumaça passa, a seca dá trégua ou a estrada é reaberta, muitas famílias seguem lidando com luto, ansiedade, medo de novas perdas, depressão, estresse pós-traumático e perda de pertencimento

Luciana Brafman
Produtora, diretora, advogada e ativista climática

Ainda segundo a pesquisa, as principais ocorrências, além dos transtornos mentais, foram a interrupção na vida social ou no convívio com a família ou amigos (58,4%) e a dificuldade no deslocamento para trabalho, escola ou creche (57,3%). Perto de 350 mil pessoas foram obrigadas a mudar por causa do desastre climático.

Os dados estatísticos reforçam a visão da advogada e ativista climática Luciana Brafman, consultora das Nações Unidas (ONU) para políticas públicas sobre clima, sustentabilidade e bem-estar das comunidades.  À frente da ONG Time to Act, ela lidera a campanha Saúde Mental Climática, que defende a criação de uma Política Nacional de Saúde Mental Climática, como proposta pelo PL 6151/25.

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Preparar as pessoas para que fiquem resilientes é a meta. Senão, essas cidades serão reconstruídas em cima de traumas“, afirma Luciana Brafman, também produtora e diretora de documentários, que critica a descontinuidade do socorro às vítimas, frequentemente prestado pontualmente e cessado assim que “o holofote vai embora.”

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O projeto de lei teve pedido de tramitação em regime de urgência feito ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, mas até agora a solicitação não foi atendia. De autoria dos deputados Pompeo de Mattos (PDT/RS) e Fernanda Melchionna (PSOL/RS), o projeto de lei defende a criação de uma política pública permanente para prevenir, tratar e acompanhar os impactos psicossociais da crise climática no Brasil.

A cada enchente, seca, queimada, deslizamento ou deslocamento forçado, a atenção pública se volta para o número de mortos, desabrigados, desalojados, prejuízos materiais e danos à infraestrutura. Mas, quando a emergência deixa de ocupar o noticiário, permanece uma dimensão menos visível e ainda pouco nomeada no debate público: o impacto emocional, psicossocial e comunitário da crise climática”, comenta Brafman.

Causa e efeito

Foi durante a COP30, realizada em Belém, em novembro de 2025, que surgiu a ideia da campanha Saúde Mental Climática e do projeto de lei. A diretora e produtora estava em Belém apresentando o curta metragem “Memória Radical”, sobre as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. O documentário, dirigido pela própria Luciana Brafman e por Ricardo Carioba e produzido pela Time to Act, começou a ser filmado ainda durante as enchentes. Durante 16 dias, a equipe percorreu cidades submersas, de barco, de carro, a pé, e muitas vezes dentro d’água.

Não é de hoje que a relação entre crise climática e saúde mental vem aparecendo em estudos internacionais e em práticas recentes de resposta a emergências. A exposição a eventos extremos, como enchentes, secas, queimadas e deslizamentos, está associada a sofrimento psíquico, ansiedade, depressão, estresse pós-traumático, luto, deslocamento forçado e ruptura de vínculos comunitários. É o trauma coletivo climático.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) já constatou que um em cada cinco pessoas expostas a desastres naturais pode desenvolver transtornos mentais relevantes. Eventos extremos – que podem voltar a ocorrer agora com a chegada de um El Niño muito forte – não destroem apenas casas, ruas, plantações e equipamentos públicos. Eles desorganizam territórios, rompem vínculos comunitários, interrompem trajetórias de vida e produzem sofrimento psíquico coletivo. “Depois que a água baixa, a fumaça passa, a seca dá trégua ou a estrada é reaberta, muitas famílias seguem lidando com luto, ansiedade, medo de novas perdas, depressão, estresse pós-traumático e perda de pertencimento”, comenta Luciana Brafman.

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Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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